Notícias do Vale do Paranhana.

Apontado pela Polícia Federal (PF) como integrante de um grupo criminoso que produzia dinheiro falso, o médico preso na última quarta-feira (29) é um gaúcho de 52 anos.

O nome, que não foi divulgado pela polícia, foi apurado por GaúchaZH. Ao mesmo tempo em que trabalha em um pronto-atendimento (PA) 24 horas em Torres, no Litoral Norte, o médico é, segundo a investigação, responsável por negociar por redes sociais moedas fabricadas em um laboratório ilegal em Três Coroas e distribuí-las pelos Correios para todo o país.

Durante a Operação Pirita, ele foi detido em flagrante quando a PF cumpria mandado de busca e apreensão em sua casa, e foi liberado no dia seguinte por um alvará de soltura expedido pela Justiça Federal. Nesta fase da investigação, o médico não atendia aos requisitos para solicitação de prisão preventiva.

Natural de Porto Alegre, o médico é clínico geral com atuação no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Em uma rede social, diz ter formação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No currículo, também estão passagens como plantonista de emergência no Hospital de Sombrio (SC), de 2010 a 2012, e médico intervencionista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Criciúma entre 2012 e 2015.

Desde o início de 2018 é funcionário da ProMed Serviços em Saúde, empresa contratada pela prefeitura de Torres para administrar o PA da cidade. De acordo com o secretário de Saúde de Torres, Claudio Paranhos, o médico investigado preenche lacunas da escala médica, cumprindo 24 horas por semana – em dois plantões de 12 horas. O secretário diz ter recebido com surpresa a notícia da prisão do médico:

— A gente nunca espera que um profissional médico, que tem uma carreira, um conselho federal, uma remuneração que considero boa, vai estar envolvido com esse tipo de coisa. É um em um milhão.

Segundo Paranhos, a prefeitura paga R$ 139,90 a hora do profissional médico para a ProMed:

— Médico querendo trabalhar tem fonte de renda infinita. Não precisa estar envolvido com isso.

Em nota enviada à reportagem, a ProMed disse que abriu “sindicância interna para apurar as medidas a serem tomadas acerca dos fatos ocorridos com o médico colaborador”. Também afirmou que “como medida cautelar, o profissional médico já se encontra afastado de suas atividades”. Também reforça que atua desde 1999 no mercado e “não compactua com quaisquer práticas ilegais dos seus colaboradores, seja no exercício da medicina ou não”.

ANTECEDENTES

O médico tem antecedentes por ameaça a uma companheira, perturbação de tranquilidade e falsidade ideológica. Tramita na esfera cível da Justiça Estadual uma ação na qual o Ministério Público denunciou o médico por falsa identidade. Conforme a denúncia, em fevereiro de 2010 o médico omitiu em documento público uma declaração para alterar a verdade “sobre fato juridicamente relevante”.

O fato diz respeito a conduta médica investigada pelo MP quando o médico, atuando como médico na Secretaria de Saúde de Morrinhos do Sul, “assinou e carimbou duas notificações da receita e as encaminhou” a uma farmácia omitindo “informações obrigatórias que deveriam constar em tais documentos, tais como especificação do medicamento e posologia”.

A investigação da PF aponta que o médico negociava notas falsas por redes sociais e as enviava pelos Correios para todo país. Era um representante comercial do produto ilegal – intermediário entre o fabricante das notas e os clientes. Na residência do médico, a PF encontrou cinco cédulas falsas.

O esquema seria liderado de Três Coroas, no Vale do Paranhana, de uma residência onde o dinheiro era produzido. No local, foi preso o homem apontado como chefe da organização – esse investigado segue detido. Ambos responderão pelo crime de moeda falsa – a pena é de três a 12 anos de reclusão – e organização criminosa – com pena de três a oito anos. Em depoimento à polícia, o médico negou os crimes.

— O médico não produzia. Ele comprava e revendia. É um cara que tem que sair do mercado pois pode vir a procurar outro laboratório posteriormente. O crime tem uma pena alta porque isso afeta a economia nacional. O valor da moeda está na credibilidade. Se não combater quem falsifica, a moeda perde credibilidade — disse o delegado da Polícia Federal Rodrigo Koehler em coletiva de imprensa na quarta-feira (29).

R$ 2 MILHÕES EM CIRCULAÇÃO

A apuração da PF identificou, apreendeu e retirou de circulação mais de 28 mil cédulas falsas produzidas pelo grupo criminoso — são notas de R$ 10, R$ 20, R$ 50 e R$ 100. No total, o valor colocado em circulação chega a quase R$ 2 milhões. De acordo com Koehler, o laboratório vinha produzindo moeda falsa há quatro anos e colocava em circulação de 4 mil a 10 mil cédulas por mês:

— Várias delas estão circulando porque passam em teste de segurança. Só a marca d’água não dá mais para confiar. O líder tem bom conhecimento gráfico e técnicas diferenciadas. Usava equipamentos variados, cada um para fazer um item da cédula.

Considerado como um dos três mais importantes do país, o laboratório alvo da operação era apontado pelo Banco Central como um dos principais pontos ilegais a serem desarticulados devido à qualidade da falsificação das notas.

— Os falsários estão desenvolvendo diversas técnicas gráficas de simulação dos elementos de segurança da nota. Eles têm bastante trabalho, aprenderam formas de simular alto relevo, tem um papel melhor, usam técnica para simular elementos holográficos, microelementos de segurança, elementos reagentes a luminescência de raios UV. Com o tempo, passam a fazer coisas que achávamos que não era possível — explica o delegado.

CONTRAPONTO

Responsável pela defesa do médico, o advogado Felipe Mallmann afirma que ainda não teve acesso ao processo no qual seu cliente está sendo investigado:

— Ele tinha notas falsas, mas essas notas eram grosseiramente falsificadas e por isso foi solto. Pelo que ele me disse, não tem nada a ver com os fatos e é inocente. Foi um mal entendido. A prisão não tinha relevância, tanto que foi solto.

*Com informações de GaúchaZH