Notícias do Vale do Paranhana.

Por Olavo Menezes
Microempreendedor e bacharel em direito

No dia 30 de setembro, o Estúdio do Morro, em Taquara, promoveu o evento aberto e gratuito Roda de Chimarrão e Prosa: (Re)Construindo Masculinidades. Em pauta, como dizia o convite: “Já não nos basta viver como nossos pais; os novos tempos requerem novas pessoas”.

Durante o período de divulgação e convites, os quais foram enviados majoritariamente para o público masculino, muitas pessoas questionavam a temática do encontro ou mesmo o recorte de público. Ou seja, “por que para homens?”. Junto com o questionamento sobre o recorte de público, vinham também questionamentos de por que homens discutindo problemas relacionados ao universo feminino, em especial a violência que aflige as mulheres, seja no ambiente doméstico ou fora dele.

Muito embora o tema do evento tenha relação direta com o problemas enfrentados pelas mulheres (segundo o Mapa da Violência de 2018, duas mulheres morrem por hora no Brasil, vítimas de feminicídio), a masculinidade tóxica caracterizada como violenta (resolve-se com força), repressiva de sentimentos (homem não chora), também causa danos em outras esferas, como aqueles enfrentados pelos LGBT, a pedofilia, o racismo e aos próprios homens.

Intencionalmente este foi o foco do encontro: reunir homens para conversar sobre a sua situação e como se relacionam como as mudanças necessárias no comportamento masculino. Para contribuir na discussão, contamos com a ajuda de um facilitador.

Por óbvio que não foi negada a participação de mulher alguma, inclusive algumas nos contataram a fim de pedir esclarecimentos sobre o tema, o evento e a possibilidade de participarem. Entretanto, o evento acabou por reunir somente homens, com idade entre 25 e 45 anos, em sua maioria casados e pais.

No início do encontro, os presentes ainda se mostravam um pouco reticentes, segundo verbalizou um deles, “… é difícil uma reunião somente de homens que não seja para discutir futebol”. Porém, à medida que a conversa foi se desenvolvendo, iniciamos uma discussão acerca dos tipos de masculinidades e as suas construções sociais. Apontou-se, por exemplo, que este modelo de masculinidade sob o qual fomos educados, sustenta-se como invulnerável, agressivo, detentor da palavra e da superioridade em relação a mulher. Muitos recordaram os ensinamentos familiares ou mesmo escolares sobre: meninos não chorarem, roupas azuis e futebol são coisas de homens. Homem é o esteio/chefe da família.

O grupo reconheceu como sendo o modelo de comportamento masculino atual aquele baseado na masculinidade tóxica, que afeta o próprio homem, anulando e descaracterizando, implicando uma condição que o limita, apontou se o fato de muitos homens não fazerem exame de próstata em razão da vergonha e preconceito. Quando o homem encontra-se desempregado ou afligido por doença, seja ela incapacitante ou não, acredita em razão destas toxicidades ser menor, incapaz, deprimido e, em não raros casos, recorrem ao suicídio, como aponta o dado da Organização Mundial da Saúde (OMS), onde 76% do total de suicídios são de homens.

Outro apontamento importante diz respeito ao fato de a masculinidade tóxica ser um tema que repercute em toda a sociedade, e estão intimamente conectados aos flagelos e violência a que estão submetidos outros grupos sociais. Assim, embora seja premente a discussão e ação sobre violência contra mulheres ou grupos LGBT, a discussão sobre masculinidade toxica é tão prioritária quanto, pois via de regra se coloca como causa, motivo e fermento destas relações violentas.

De outro lado, conseguimos também apontar qual modelo de masculinidade é esperado dos homens e das suas relações na medida em que acreditamos que isto ajudará na construção de uma sociedade mais igualitária. Muitos dos homens presentes reconheceram em suas práticas cotidianas ações afirmativas neste sentido. Também foi possível ouvir relatos de comportamentos que mudaram ao longo do tempo, e estabeleceram novas relações familiares, sem a ideia de chefe de família, com atividades domésticas divididas entre os membros. Cabe destaque que estes últimos relatos em sua maioria foram produzidos pelos jovens presentes.

Obviamente que a reunião de um grupo de homens que não mantinham nenhum vínculo entre si, a não ser o recorte de gênero e o fato de frequentarem o Estúdio do Morro na condição de músicos ou por razão diversa, produziria uma discussão heterogênea e em alguns momentos conflituosas. Entretanto, a diversidade nos possibilitou ouvir críticas ao movimento feminista, mas também dúvidas que não permitam entender a legitimidade do movimento de gênero. Ouvimos também a crença nos modelos deterministas de desenvolvimento do homem e da mulher e que acabam por corroborar na manutenção das desigualdades de gênero.

Nosso encontro, porém, produziu consensos. Avançamos na ideia de que o feminismo, sim, é movimento das mulheres, que busca sobretudo uma sociedade igualitária, cabendo aos homens apoiar o movimento de emancipação feminina, o que significa acabar com o machismo. Avançamos também na ideia de que nosso papel enquanto homens deve ser de buscar uma nova condição, um modelo de masculinidade que permita estabelecer relações saudáveis, não violentas, não hierarquizadas, que respeitem as opções e a diversidade comportamental das pessoas em geral.

Concluímos o encontro com dois objetivos de curto prazo. O primeiro deles, replicar o que havíamos discutido no evento em outros grupos com os quais mantemos relações e fazemos parte. Ampliando a discussão sobre o tema da necessidade de revermos nossa masculinidade e o quanto ela tem sido tóxica para nós e os que estão a nossa volta. O segundo, que deveríamos voltar a nos encontrar, para aprofundar a discussão e ampliar o leque temático que diz respeito ao tema.

Por fim, embora o evento tenha se tornado talvez embrionário de um movimento necessário e urgente nesta região, ele também cumpriu com a sua primeira expectativa: reunir por adesão voluntária um grupo de homens com único intuito de discutir suas experiências, fragilidades, expectativas, atendendo assim ao fato de que os novos tempos requerem novos homens.