Notícias do Vale do Paranhana.

Após a estreia do especial com as principais instituições que resguardam a história do Paranhana, que teve início com o Museu de História da Tecnologia Harald Alberto Bauer, o portal TCA retrata nesta reportagem passado, presente e futuro de um outro emblemático memorial.

Quem assistiu ao filme ‘Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida’ (Paramount Pictures, 1981), talvez lembre da cena final, quando a “Arca da Aliança”, artefato arqueológico bravamente buscado pelo protagonista durante toda a história, acaba guardada em uma caixa de madeira e arquivada em um enorme depósito.

Com o perdão pelo spoiler a quem nunca assistiu ao filme e guardadas as proporções – obviamente distantes do romantismo arqueológico de tantas obras do cinema –, o Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul (Marsul), em Taquara, hoje tem seu acervo quase que totalmente acondicionado de forma parecida: em caixas de arquivo, inalcançáveis aos olhos dos apreciadores leigos de vestígios de civilizações passadas.

No salão principal está a “reserva técnica”, onde estão guardados vestígios arqueológicos provenientes de pesquisas realizadas em 1.198 sítios históricos e pré-históricos (Foto: André Amaral/TCA)

Essa é a situação do museu desde agosto de 2010, quando foi fechado pelo Ministério Público Federal (MPF), a partir de recomendação do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan).

À época, o MPF alegou que o Marsul apresentava riscos que poderiam ocasionar a danificação do acervo. Isso sem falar nas precárias condições estruturais, principalmente na parte física do prédio e problemas na rede elétrica. Parte do museu também vinha sendo utilizada como depósito de objetos da prefeitura de Taquara, principalmente móveis e documentos de arquivo morto – até uma oficina de reparos gerais chegou a funcionar no local.

De lá para cá, o cenário mudou. Obviamente, por conta das condições insuficientes, o local segue fechado para visitação – com exceção da comunidade científica, que ainda tem acesso aos artefatos cerâmicos, têxteis e vestígios de civilizações pré-coloniais e coloniais para objetivos de estudos de diversas partes do Brasil e também de escavações no Peru e México. Há otimismo em relação ao futuro.

PRESENTE E FUTURO

Em 2016, por meio de uma verba estadual de R$ 85 mil, foram realizadas obras de manutenção para sanar infiltrações, reativar um sanitário, substituir vidros, reestabelecer a intalação hidraulica e substituir aberturas danificadas.

De acordo com o historiador Antônio Carlos Soares, diretor do museu, para a reabertura é necessária a realização de várias ações técnicas, no âmbito de um planejamento estratégico.

— A Surya Projetos, conveniada ao Estado, é a curadora oficial. O objetivo é de reestruturar o Marsul como um todo. A reforma do prédio já foi projetada em convênio junto ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e está orçada em 3 milhões de reais — explica.

Soares diz que o convênio com a Surya – Parceria Público-Privada (PPP) firmada em 2016 –, objetiva realizar inventário do acervo do Marsul e reestruturar técnica e fisicamente a área de acervo

— Dessa forma, o museu poderá receber novos acervos e gerar recursos para sua sustentabilidade.

A HISTÓRIA DO MUSEU E SEU MAIOR PERSONAGEM

Criado pelo Decreto Estadual 18009/66 em 12 de agosto de 1966, o Marsul é uma Instituição da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Rio Grande do Sul. Nasceu ligado ao Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (Pronapa), sob o patrocínio do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e da Smithsonian Institution da cidade de Washington, EUA, em colaboração da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), iniciado em 1965 e encerrado em 1970.

A fundação e história do Marsul confunde-se com a de um taquarense abnegado pela arqueologia. Eurico Theófilo Miller, professor da rede de ensino estadual, realizava pesquisas na área da arqueologia no início dos anos de 1960. Em acordo com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, ele doou seu acervo em troca da criação de uma instituição voltada à arqueologia.

Eurico Miller nos primórdios de seu trabalho na instituição, a serviço do Pronapa (Foto: Marsul/arquivo)

Inicialmente, o Marsul esteve sediado na própria residência de Miller. Depois, durante doze anos, ficou instalado em um frigorífico abandonado (foto abaixo). Em janeiro de 1977, a partir da doação de um terreno por parte da Prefeitura de Taquara, o Marsul, foi transferido para sua atual sede, na estrada RS-020, no Km 54.

(Foto: arquivo Marsul)

— Minha condição de arqueólogo profissional desde 1965 evoluiu da condição de arqueólogo aficionado amador, despertado aos cinco anos de idade, em 1937, devido aos passeios instrutivos pelas fazendolas de meus avós e vizinhos, até os 28 anos, no ano de 1965 — autodefiniu-se Miller em seu Lattes.

O taquarense publicou vários estudos de imensurável relevância internacional sobre a arqueologia da região Sul e da Amazônia. Além do Rio Grande do Sul, ele atuou em Rondônia, Mato Grosso e, por último, no Distrito Federal, onde era servidor das Centrais Elétricas do Norte do Brasil S/A.

Miller faleceu no último dia 11 de julho, aos 86 anos, em Curitiba. Ele possuía graduação em Licenciatura Plena em Geografia (1973), especialização em História da Cultura Brasileira (1980) e mestrado em História (1983) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Seu trabalho foi lembrado com homenagem da Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB).

Eurico Theófilo Miller deixou um legado de imensa relevância para a arqueologia brasileira (Foto: reprodução Facebook)

AS CONDIÇÕES ATUAIS DO PRÉDIO

De acordo com informações da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do Estado do Rio Grande do Sul (Sedactel), o Marsul está interditado. Porém, o acervo está sendo tratado por uma equipe técnica de uma empresa que venceu a chamada pública para realizar o trabalho (Surya Projetos).

A nota da assessoria de imprensa ainda informa que a empresa fez grande avanços quanto à organização do acervo. “A Sedactel promoveu obras solicitadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que deixaram as condições de ‘armazenamento’ muito boas”.

Soares observa que há alguns pontos a serem melhorados.

— A ausência de controle de temperatura é um dos problemas. No projeto consta a instalação de ar-condicionado e cortinas para controlar a luminosidade — observa.

O diretor trabalha sozinho, porém, tem o apoio da equipe da empresa de suporte com historiadores, museólogos, arqueólogos e outros profissionais. A área administrativa, onde também há uma biblioteca com diversos livros, publicações científicas e teses elaboradas com material do Marsul está em funcionamento.

Apesar de alguns problemas de infiltração, a reportagem constatou que o local está limpo (inclusive na parte externa) e organizado. Somente a parte de exposição ao público que não está montada.

“A Sedactel vem trabalhando para levantar a interdição e poder abrir o Museu à visitação novamente” encerra a nota.

ACERVO E RESERVA TÉCNICA

Segundo Soares, o Marsul possui, em sua reserva técnica, significativa parcela do patrimônio arqueológico nacional, que está representado por vestígios arqueológicos provenientes de pesquisas realizadas em 1.198 sítios arqueológicos históricos e pré-históricos.

O historiador Antônio Carlos Soares, diretor do museu, mantém vivo o contato da instituição com a comunidade científica (Foto: André Amaral/TCA)

São 92 registros provenientes dos estados do Amazonas, do Mato Grosso e de Rondônia. Outros 13 são oriundos de Santa Catarina e de 1.093 sítios arqueológicos provenientes da cidades do Rio Grande do Sul.

Outra figura que merece ter o trabalho destacado é a do biólogo, arqueólogo e pesquisador André Luiz Jacobus (já falecido), que manteve no museu um espaço dedicado à arqueologia faunística. Em uma das salas, ele estudava a fauna arqueológica em vestígios de ossadas de animais encontrados nos sítios.

— Aqui funcionava a coleção de referência do Jacobus. Neste espaço também há alguns vestígios de indígenas, como ossadas e crânios — conta o diretor.

O espaço da “coleção de referência” do antigo diretor André Jacobus (Foto: André Amaral/TCA)

ENTREVISTA

Em entrevista (feita em duas partes), com um belo cenário repleto de vasilhas guaranis, Antônio Carlos Soares detalha seu trabalho e os projetos futuros para que, um dia, o Marsul reabra suas portas para o público.