Notícias do Vale do Paranhana.

Este fim de novembro é de muita expectativa para o curling brasileiro. Nesta quinta-feira (28) até sábado (30), em Eveleth, nos Estados Unidos, as equipes feminina e masculina participarão do Americas Challenge 2019, competição que dá vaga para o Mundial da modalidade. O torneio contará com Brasil, Estados Unidos e México, e o melhor time se juntará ao Canadá como representante do continente americano no maior campeonato de curling de 2020, que ocorre na Escócia.

E entre os atletas da seleção brasileira que encara o México na tarde desta quinta (a partida ainda não havia encerrado até o fechamento da matéria) está um taquarense. Filipe Nunes, que chegou à América do Norte em 2004 por meio do intercâmbio Faccat-Canadá do Projeto Rondon, desenvolvido através da ONG Jeunesse Canada Monde, é um dos pioneiros do curling no Brasil.

Mas o contato com o esporte de gelo (entenda o curling na matéria mais abaixo) só foi acontecer em 2009 – considerado o marco-zero da prática profissional do esporte por brasileiros. Nos anos anteriores, Nunes jogou futebol pela Universidade de Sherbrooke – onde conseguiu uma bolsa de estudos e cursou administração –, defendendo a equipe na liga universitária.

— A transição para o curling ocorreu no mesmo ano em que o ciclo de cinco anos de futebol pela universidade encerrou. Lesões no joelho e tornozelo também contribuíram para que eu saísse dos gramados — lembra.

E o convite para experimentar o esporte gelado veio de velhos conhecidos.

— Os guris que jogavam bola comigo no fim de semana que deram início ao curling brasileiro. Esse pessoal veio me convidar para experimentar, já que eu praticava outros esportes no gelo, como snowboard e esqui. De início, falei que não achava um esporte muito atraente, mas topei o desafio — conta.

Esse “ranço” com o curling durou bem pouco.

— Treinei um dia e, na semana seguinte, já estava disputando um torneio com eles. Achei interessante a dinâmica do esporte, aquela coisa da estratégia, de um tentando tirar a pedra do outro, uma mistura de bocha e xadrez. É bem bacana o momento em que tu entra na quadra de gelo e entende toda a dinâmica do jogo. Em um ano, peguei gosto pelo esporte e já fui representar o Brasil — relata.

Segundo Filipe (à esquerda), o curling reúne elementos estratégicos parecidos ao do xadrez e da bocha

Nunes defende dois times de curling em Sherbrooke, cidade em que vive. A rotina de treinamentos é de duas vezes por semana. Mas, apesar do profissionalismo intrínseco ao esporte, o curling canadense, assim como o futebol no Brasil, não perdeu o aspecto humano que o envolve.

— É um esporte “social” por aqui. Para encontrar pessoas e socializar. O time que ganha oferece pagar a cerveja para os adversários derrotados. Depois, os derrotados pagam uma cerveja de cortesia aos vitoriosos. É uma forma muito legal também de brasileiros recém-chegados ao Canadá de conhecerem as pessoas e serem apresentados à cultura local — explica o atleta.

VIDA PROFISSIONAL E VIDA DE ATLETA

Nunes tem 38 anos e há 15 vive no Canadá, onde é casado, tem dois filhos e trabalha como diretor-geral de uma empresa de tecnologia, a Magex Technologies (que patrocina a equipe brasileira), que tem como produto um software de gestão imobiliária. E em meio às grandes responsabilidades profissionais e familiares, ele consegue encontrar tempo para defender o Brasil e ajudar no desenvolvimento do esporte.

— Uma das grandes barreiras no desenvolvimento do curling brasileiro é a falta de tempo dos atletas, que têm vida profissional e familiar, e também do pouco investimento no esporte — pondera.

Filipe em frente à arena nos EUA em que o Americas Challenge é disputado

CRESCIMENTO DO ESPORTE NO BRASIL

Para Nunes, o caminho para o esporte crescer é o de conseguir investimento e apostar em jovens que queiram nesse mundo e treiná-los.

— Desde 2012, nas Olimpíadas de Inverno em Vancouver, o curling se tornou o esporte mais visto pelos brasileiros, o que atraiu interessados e até resultou na criação da arena no Brasil. Com isso, a gente espera uma evolução do esporte nos próximos 5 ou 10 anos, com equipes fortes e competitivas — projeta.

Essa nova geração de jogadores, devidamente treinados em um ambiente profissional, pode fazer com o Brasil tenha uma equipe forte no futuro.

— O Brasil vai ganhar uma arena de gelo, que será inaugurada em janeiro em São Paulo. A abertura será feita em maio, com disputa de campeonato brasileiro e exibição com a presença de alguns países que serão convidados, como a Rússia. A arena também servirá para o treinamento de outros atletas brasileiros do gelo, como a patinação artística e o hockey, que atualmente têm que treinar em países como EUA, Canadá, Alemanha e Suíça — explica.

CAMPEONATO BRASILEIRO… NO CANADÁ

A Confederação Brasileira de Desportos no Gelo organizou entre os dias 25 e 29 de novembro de 2015, em Vancouver, no Canadá, o primeiro Campeonato Brasileiro de Curling. O evento serviu para divulgar e fomentar a prática do esporte entre os expatriados.

— Não temos tradição no esporte, já que disputamos competições há apenas dez anos. O Campeonato Brasileiro de Curling em duplas iniciou no Canadá em 2015, competição que dá vaga ao Mundial. Já disputei uma edição e fiquei em 2° lugar — conta.

A EQUIPE

Esta será a sétima vez que o time masculino do Brasil tentará bater os grandes do esporte. O grupo, que contará com o experiente capitão Marcelo Mello, estará com uma das mais preparadas equipes brasileiras de todas as edições. Além de Filipe Nunes e Mello, estão Michael Krähenbühl, Scott McMulla (canadense casado com uma brasileira) e os reservas Ricardo Losso e Sergio Mitsuo Vilela. Eles esperam a melhor participação brasileira da história.

— Nosso objetivo no Challenge é vencer o México e tentar fazer um resultado contra os EUA, de modo a disputar a segunda vaga. Estamos trabalhando e treinando forte. A confederação vem dando bastante incentivo, bem como empresas que apoiam. Também contamos com o bolsa-atleta do governo federal — detalha Nunes.

Filipe e seus companheiros de seleção


COMO FUNCIONA O CURLING

Um dos queridinhos dos Jogos Olímpicos de Inverno, o Curling é uma modalidade que, a princípio, lembra a bocha, mas possui um nível de complexidade que o faz ser conhecido como “xadrez no gelo”. O jogo consiste no lançamento de pedras em relação a um alvo e, no fim, quem tiver mais pontos vence a partida.

O Curling é um dos esportes coletivos mais antigos do mundo, sendo praticado desde o Século 16 nos lagos congelados da Escócia. O primeiro clube de Curling surgiu em 1716 (Kilsyth Curling Club) e existe até hoje. No Século 19, as primeiras regras foram criadas. Ele fez parte da primeira edição dos Jogos de Inverno, em 1924, mas só retornou ao programa olímpico em 1998.

Atualmente, o Curling possui três categorias principais: a mais tradicional é a competição por equipes, modalidade formada por quatro homens ou quatro mulheres; a dupla mista, que surgiu no início dos anos 2000 e é formado por um homem e uma mulher; e a competição mista por equipe, com dois homens e duas mulheres, e que surgiu em 2015. Apenas essa última não é olímpica.

A Escócia é o berço do Curling, mas o Canadá é a principal potência do esporte. O país da América do Norte conquistou mais da metade dos Campeonatos Mundiais por equipes e possui seis das 14 medalhas de ouro já disputadas em Jogos Olímpicos. Além dos canadenses e escoceses, os suecos e os noruegueses também se destacam no esporte.

A COMPETIÇÃO

O formato do Americas Challenge é o Double Round Robin. Isso significa que todas as equipes se enfrentam duas vezes. O quarteto com maior número de vitórias fica na primeira colocação e garante vaga no Mundial. Se houver empate, os critérios são confrontos diretos e, depois, o Draw Shot Challenge, que são os arremessos que antecedem as partidas para saber quem inicia com o martelo.

Quem ficar com a segunda posição do Americas Challenge garantirá vaga na repescagem, que é a última oportunidade de carimbar a vaga para o Mundial. A repescagem acontecerá em janeiro do ano que vem, em Lohja, na Finlândia.

OS ADVERSÁRIOS

Os Estados Unidos são favoritos em ambas as categorias. A equipe masculina surpreendeu o mundo em 2018, nas Olimpíadas de PyeongChang, quando desbancou as favoritas Suécia, Suíça e Canadá e ficou com a medalha de ouro. O time que jogará o Americas Challenge é o segundo do ranking americano, mas, ainda assim, é considerado muito qualificado.

Os mexicanos não ficam atrás. Apesar da pouca tradição e de ser estreante no torneio, a equipe masculina, por exemplo, conta com experientes jogadores canadenses naturalizados.

MAIS VAGAS

Fora das pistas a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo está se movimentando para que possa ser criada uma competição classificatória ao Mundial, que incluiria as duas vagas destinadas ao continente. Essa competição seria considerada um Pan-Americano e incluiria os países federados (Brasil, Canadá, Estados Unidos, Guiana, México, Ilhas Virgens e República Dominicana). Ainda este ano a proposta deverá ser analisada pelo comitê de competições da WCF e, em setembro de 2020, votada no Congresso Anual, que acontece em São Petersburgo. A mudança valeria apenas para 2021.

O time masculino de curling é patrocinado pela Rock Solid e pela Gross Stabil. Todas as informações sobre o evento você pode acompanhar pelas redes sociais da Ice Brasil.