Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é um empresário com formação em filosofia. Um de seus sonhos é ainda dar aulas de filosofia em escolas públicas. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde investiga a "mecânica do desejo nas relações de poder". Escreveu também o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é co-fundador e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Co-fundador também da Scopi, desenvolvedora de um software que ajuda na criação e execução de planos estratégicos, cuja ambição é ajudar o Brasil a criar a cultura do planejamento.

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Niilismo político

Antes mesmo das eleições presidenciais ocorrerem no ano passado, a crise econômica já estava desenhada, ou melhor, ela já existia, porém o governo camuflava (“pedalava”), com o claro propósito da reeleição. Quando me refiro ao governo, não é só o PT, é também o PMDB que há décadas nos governa. A crise econômica foi represada e veio como um enxurrada. Inflação, restrição de crédito, disparada do dólar, desaceleração, desemprego e perda do grau de investimento, que é o mesmo que ser reconhecido como caloteiro, são aspectos de economia sem uma gestão responsável e competente. É de chorar, como se chora quando nosso time cai para a segunda divisão e tem que ficar no mínimo um ano sofrendo para subir novamente . Como se não bastasse, e um mal nunca vem sozinho, como diz o ditado, junto da crise econômica, temos uma grave crise política. O governo perdeu toda a credibilidade. Os petistas mais conceituados e menos doentes, reconhecem a fragilidade. Isso poderia significar uma oportunidade de mudança, que não deve ocorrer pelo simples fato da oposição ser dotada da mesma fragilidade. Resta saber em quem confiar? Neste momento, o niilismo político impera. Um nada que governa e um nada que tenta fazer oposição. Neste vazio do niilismo poderia se reestabelecer novos princípios que serviriam de base para criar um novo projeto de nação. Projeto de um novo modelo político e de um novo modelo econômico. Modelo político em que a discussão sobre a forma de governo, presidencialismo ou parlamentarismo, é menos importante do que discutir mudanças na Constituição. Primeiro é preciso redefinir as novas regras do jogo. Rever a quantidade de representantes, rever o papel e até a necessidade do Senado, rever os financiamentos das campanhas eleitorais, rever as garantias de imunidade, enfim, todos os elementos necessários para que tenhamos uma política eficiente e decente, que não seja facilmente dominada pela tentação da corrupção. Não precisa ser especialista, nem tão pouco pessimista, para prever que a situação pode ainda piorar. É bem provável que virão mais duas avalições de rebaixamento do nosso grau de investimento, o que determinará menos dinheiro investido no Brasil. A solução dizem que é cortar gastos e aumentar impostos. De que jeito cortar gastos se grande parte dos gastos do governo estão carimbados, ou seja, são obrigações determinadas na Constituição? De que jeito aumentar impostos se já temos uma tributação maior que os países do primeiro mundo, comprometendo a competitividade do setor produtivo? Mudar as leis parece simples, quando se tem legisladores com conhecimento em gestão e desprendimento pelo interesse particular da reeleição. A grande maioria não tem. Quem sabe pensar uma nova constituinte apartidária, com duração por prazo indeterminado, constituída por representantes da sociedade civil? Sem remuneração, é claro, só para medir quantos ainda tem amor pelo Brasil. Algo fora do comum, precisa ser feito pelos brasileiros, caso contrário, só mesmo com a ajuda de uma interferência divina. Quem sabe, afinal, dizem que Deus é brasileiro!

Marcos Kayser

O que eu aprendi com o meu pai?

O significado que um pai tem para um filho pode ser medido pelas memórias e registros que os filhos tem do que aprenderam com seus pais. Dependendo da resposta que um filho dá à pergunta sobre o que ele aprendeu com o seu pai, podemos ter uma noção de como era e é o seu pai. O pai ensina pela palavra, mas, principalmente, pelo exemplo. É pouco dizer faz isso ou faz aquilo. É necessário, além do discurso, a ação, para que o filho aprenda pela atitude do pai, prova viva de como ele também deve agir e ser. Não basta dizer, seja responsável, se o pai não assume as suas responsabilidades. Não basta dizer seja carinhoso, se o pai pouco carinho dá ao filho. Não basta falar para ser solidário, se o pai não estiver a disposição do filho, não para fazer tudo por ele, mas encorajá-lo a fazer, quem sabe, junto. A geração atual, chamada de Z, não tem o costume de fazer junto. Ela acha que pode fazer tudo sozinha, já que tem o acesso a tudo muito facilitado. Na Internet, por exemplo, tem tudo. Você encontra desde as dicas do que uma garota mais gosta, até como usar um preservativo. Contudo, na Internet você não tem o calor da relação, não tem a intensidade da emoção. E por falar em intensidade, uma vida só é vivida quando é intensa. Intensamente não é fazer de tudo um pouco, mas fazer o pouco com profundidade. Hoje, na sociedade em que vivemos, há mais espaço para a diversidade do que para a intensidade, tamanha a variedade de opções e a dificuldade de estabelecer vínculos. Opções de tecnologia, opções de entretenimento, opções de fazer muitas coisas que roubam o tempo que poderia ser usado para estar junto. Com o passar dos anos vamos percebendo que a vida é relações, e as relações entre pais e filhos, incluindo as mães, são as mais originais, as mais verdadeiras. Eu, infelizmente, nada aprendi com o meu pai, o que sei e sinto da paternidade veio da minha mãe, que fez às vezes do pai (obrigado mãe!). Espero que o pouco que consigo ensinar a aos meus filhos sirva para serem pessoas melhores do que eu. É difícil ser pai, mas é uma experiência sem igual. Obrigado meus filhos por terem respostas sobre o que aprenderam com o pai!

Marcos Kayser

O futebol mostra a nossa cara

O futebol insiste em ensinar. A seleção brasileira foi eliminada da Copa América pela modesta seleção do Paraguai. Modesta porque o Paraguai não tem individualidades nem conjunto que o coloque numa posição de liderança no futebol mundial. Se compararmos os jogadores Cárceres, Aranda e Piris do Paraguai com os brasileiros Neymar, Willham e Daniel Alves, é bem provável que os brasileiros sejam considerados superiores, visto os clubes que defendem. Porém, mesmo tendo teoricamente os melhores jogadores, o Brasil é eliminado. Poderíamos atribuir a uma contingência do futebol, porém, quem viu o jogo, percebe com clareza que a teórica superioridade brasileira não apareceu. No ano passado, durante a Copa, nos jogos que antecederam o vexame dos 7 x 1, já havia se visto o quanto o futebol brasileiro perdeu a sua marca: a qualidade. Marca que o tornou o país com maior número de títulos mundiais, temido e respeitado. Se continuar assim, perder o posto é uma questão de tempo. O temor e o respeito já se foram. A performance da seleção é o retrato da nossa condição como nação. A seleção não tem liderança dentro e fora de campo. Nem jogador, nem treinador, nem dirigente. Na seleção atual do Brasil, Neymar e Miranda estão muito longe de representar a liderança comum a um capitão. Ao Brasil não falta só talento, mas também engajamento. Por sorte ambos não “caem do céu”, podem ser desenvolvidos com um bom planejamento. Planejamento que envolva todos, quem manda e quem faz. Assim é possível criar um novo ambiente para descobrir e desenvolver talentos, aliado aquela vontade de quem dá o sangue para vencer. Os jogadores da seleção parecem não ser brasileiros. Talvez um dos motivos seja a saída prematura do país. A reação dos jogadores brasileiros que erraram os pênaltis no jogo contra o Paraguai, demostram que, além de talento, carecemos de engajamento. Além do erro em si (alguns deles bizarro), eles são tomados de uma resignação nada transformadora. Enquanto os jogadores do Brasil assistiam as cobranças em pé, os paraguaios estavam ajoelhados. Estes pequenos detalhes podem dar um pouco da dimensão do que esta faltando à seleção e também a nossa nação. As lideranças do futebol brasileiro, bem como as lideranças políticas do país, precisariam ter vontade política para repensar o futebol e o país. A falta de vontade é facilmente percebida na falta de humildade. Humildade para reconhecer nossas carências e aprender com nossos erros. Resgatar o que éramos, ou seja o país da excelência no futebol, e produzir novas identidades. Por mais paradoxal que pareça, a sorte está ao nosso lado. Num curto intervalo de tempo o futebol mostra a nossa cara. Cabe a nós nos tocar e agir. O problema é a falta de lideranças a quem podemos confiar. Marcos Kayser

4 Motivos para fazer um planejamento estratégico

 

PARA SABER QUEM É

A velha máxima filosófica do “conhece-te a ti mesmo” se aplica também à gestão de uma empresa. Antes de agir, desenvolver produtos, realizar investimentos, assumir riscos, é fundamental a empresa reconhecer suas potencialidades (forças) e suas deficiências (fraquezas), além de identificar os motivos da sua existência. Fazer aquilo para o qual tem potencial e afinidade. Uma empresa com missão, visão e valores tem muito mais chances de construir uma história de sucesso e realização de seus sócios e funcionários. O planejamento estratégico ajuda na definição da filosofia e na análise interna da organização.

PARA SABER ONDE QUER CHEGAR

O ser humano é um ser do desejo que está em constante movimento, projetando realizar suas vontades e sonhos e, desta forma, viver bem.  Há muitas ameaças na caminhada, mas, ao mesmo tempo, a vida é cheia de oportunidades. Podíamos viver muitas vidas que não conseguiríamos realizar tudo que a vida proporciona. Antes de sair fazendo, como é de costume, a recomendação é planejar.  Quem não planeja, fica muito mais exposto à frustração de não concretizar o sonho. O planejamento estratégico ajuda a analisar o cenário externo e priorizar nossos objetivos internos.

PARA SABER COMO CHEGAR

Há muitos caminhos que levam ao mesmo lugar, porém, o tempo e o desgaste podem variar de um para outro.  Dependendo da escolha, o destino pode ficar comprometido, sendo que um percurso bem planejado, possibilita que a realização se dê já no processo da caminhada, com menos dor e sofrimento. O tempo que se levará para planejar certamente será ainda inferior ao tempo que se desperdiça, quando se recorre ao método da tentativa e erro. O planejamento estratégico ajuda a pensar nos riscos que cada caminho oferece, prever os custos e montar um cronograma que poderá ser melhor acompanhado por todos.

PARA CHEGAR ONDE QUER ACOMPANHADO DE OUTROS

Muitos andam e andam, investem recursos e tempo e não chegam onde gostariam de chegar. Os que planejam, e planejam em grupo, conseguem mais êxito nas conquistas. Não é à toa que se diz que “ninguém é feliz sozinho”. Talvez, seja este um dos motivos pelos quais se constituam famílias. Nas empresas, o planejamento estratégico ajuda a integrar os sócios e os funcionários, tornando a instituição muito mais preparada para alcançar o que deseja. Softwares como o Scopi (www.scopi.com.br) ajudam na elaboração e no acompanhamento do planejamento estratégico.

Por Marcos Kayser – Co-criador do Scopi

13 medidas para mudar o Brasil

Todos ou a grande maioria dos brasileiros clamam por um país melhor.  Há muito que fazer, corrigir, eliminar e inovar. Se compararmos nosso país à países da Europa e EUA, veremos grandes diferenças. Perdemos longe no tripé essencial:  educação, saúde e segurança. Há enorme injustiça, desigualdade e falta de seriedade, liderada pela classe política que (des)manda e governa. Alguns nomes se perpetuam, outros se intercalam, e nada muda, muito pelo contrário, piora.  Um ou outro que tenha “boa vontade” acaba esbarrando em entraves estruturais. Ao longo de um tempo, pelo que leio e escuto, elenquei  13 medidas que hoje imagino serem prioritárias para que  qualquer plano de desenvolvimento seja implantado com efetividade.  Mediante estas e outras medidas poderemos pensar em planos nacionais de educação, saúde e segurança. São elas:

1. Fim da reeleição em todos os níveis

2. Redução do número de partidos

3. Fim das emendas parlamentares

4. Criação de um limite para o número de ministérios e secretarias estaduais e municipais

5. Redução do número de municípios

6. Concentração do maior percentual da arrecadação nos estados e municípios

7. Centralização de todos os serviços sociais nos estados e municípios

8. Criação de um imposto único

9. Taxação das grandes fortunas

10. Fim do regime semiaberto

11. Fim da regressão de pena

12. Fim da indicação política para o STJ

13. Prisão perpétua para crimes hediondos

E as suas, quais são?

Da sensação à ação

Toda ação do homem é precedida de uma ou mais sensações. Estas sensações produzem percepções. Podemos dizer que a percepção é uma sensação melhor elaborada. Para perceber, se dar conta, é necessário antes ter a sensação. A ação então depende de nossa sensibilidade, que conforme minha filo amiga Marcia Tiburi, é uma capacidade de ter atenção às coisas. Acrescento dar atenção às coisas e se incomodar quando algo está fora do lugar e gera desconforto. Uns tem mais atenção do que outros, sentem mais e se tocam (percebem) mais facilmente. Eu diria que os mais atentos, os mais “ligados” como se diz atualmente, tem um potencial maior de ação e transformação no mundo, o que nem sempre se concretiza na prática. Fiz um teste de sensibilidade com meus colegas de trabalho. Por uma semana deixei um quadro, cujo fundo havia caído, no chão, escorado numa parede por onde todos passavam. Pedi a eles escreverem num papel em branco uma ou mais coisas que os incomodavam na sala em que eles trabalhavam, onde se encontrava o quadro no chão. Como regra eles tinham 1 minuto para escrever. Entre os nove participantes da brincadeira, ou melhor do “teste de sensibilidade”, apenas dois registraram o quadro. Três apontaram nada e os demais citaram outras coisas fora o quadro. Aí falei a eles do quadro e os que não haviam se dado conta dele passaram a ter o quadro como algo fora do lugar e fonte de desconforto. Perguntei aos dois porque não fizeram nada para colocar o quadro no lugar e eles não souberam me responder. Conclui o teste dizendo a eles que a sensibilidade é uma capacidade importante para melhorarmos o ambiente em que vivemos e as relações que temos com as pessoas. Mas só ter sensibilidade não basta para mudar o (nosso) mundo. É preciso agir, para corrigir, melhorar e colocar as coisas no lugar, no mais amplo sentido.

Marcos Kayser

Panfletagem e trânsito

Sob o argumento de gerar desemprego, os vereadores taquarenses desaprovaram o projeto da vereadora Sirlei Silveira que proibia a colocação de panfletos nos para brisas dos automóveis em Taquara. Por mais esforço que faço (e muitos estão fazendo) ainda não consigo compreender  este argumento.  Teria sido feito algum estudo para levantar os impactos sociais e econômicos do suposto desemprego? Qual seria o contingente de desempregados? E eles estariam devidamente registrados, com carteira assinada, décimo terceiro e férias senso pagas?  É provável que o estudo mostre uma realidade que requeira outros projetos mais eficazes que ataquem inclusive à informalidade, tão prejudicial ao trabalhador e à sociedade. Desemprego de quem não está empregado (parece contrariedade)? Ao fim ao cabo, a proibição não impediria os panfleteiros de continuarem o exercício da profissão, bastando fazê-la de mãos em mãos, respeitando assim o direito de cada pessoa de querer ou não receber a publicidade. Quem sabe os nossos representantes revisem o projeto e ouçam a comunidade formada pelos proprietários de veículos. E eu achava que o projeto seria estendido, proibindo também a colocação de panfletos nas caixas de correspondência.

Outro assunto que pode melhorar a vida dos taquarenses é a proposta de mudança no trânsito no centro da cidade. Não sei detalhes do estudo que deve ter sido realizado, mas acredito que seja consenso a necessidade de experimentar mudanças, visando descongestionar e tornar o tráfego mais seguro. Simpatizo (e muitos outros também) com a proposta apresentada em que ruas terão mão única e a Julio de Castilhos sentido invertido. Esta, particularmente, vai ser muito interessante. O olhar sobre a Julio será diferente. A estética vai mudar. Por isso, acho que vale a pena experimentar. Fico surpreso com a confusão feita por alguns cidadãos taquarenses que argumentam contra, dizendo que o prefeito deveria se preocupar em tapar buracos e asfaltar as ruas. Uma coisa não elimina a outra. Cabe sim melhorar a situação das ruas e cabe também repensar o fluxo de veículos. Vai ser algo novo e Taquara está precisando de um choque de novidades positivas, caso contrário continuará ficando para trás em termos de qualidade da cidade. Quem sabe, esta mudança que parece radical, motive outras mudanças importantes.  Incrível como alguns tem dificuldade em aceitar mudanças ou, ao menos, se dispor a experimentá-las. Segundo informação do próprio Prefeito Titinho, haverá mais uma audiência pública para debater a proposta. Torço para que a próxima iniciativa seja aplicar multa em quem não mantém suas calçadas e sarjetas em dia, ou seja, sem buracos e limpas.   Não vejo a hora de descer a Julio!

Entre um sim e um não

Vim ao mundo sem ter escolhido.

Azar o meu? Não!

Presente que eu não contava.

Bendita mãe que me esperava.

Aprendi tendo que escolher.

Sorte a minha? Sim!

Entre um sim e um não, cresci.

Apesar das perdas que sofri.

Terminarei meus dias sem ter escolha.

Azar ou sorte a minha? Não sei!

Desconheço o que vem depois.

Tomara que me escolham de novo, um dia ou dois.

A perda da brasilidade

Diretamente de São Francisco, na Califórnia, meu amigo Josemar, com seus vinte e poucos anos, tão logo soube do resultado das eleições presidências na sua terra natal, fez o seguinte comentário: “Estou feliz de não estar no Brasil e espero poder declarar no meu próximo Imposto de Renda: Saída Definitiva do País. Estou ciente da minha família e amigos. Tenho certeza que eles estão felizes por mim estar batalhando por algo melhor e para um dia poder ajudá-los com qualquer coisa que eles necessitem.” Josemar certamente não fez este desabafo por desamor à “pátria amada” (conheço ele), mas porque não vê no Brasil oportunidades para crescer e evoluir. Não há expectativa de um futuro promissor, principalmente para aqueles que querem algo mais, vencer por sua própria competência, sem depender da troca de favores e da inversão de valores. Na conjuntura brasileira, marcada por profundas desigualdades, Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida são indispensáveis, mas ainda são programas no campo do necessário, da necessidade. Matada a fome de comer e o desejo de ter a casa própria, não há no Brasil um plano que contemple ações de impacto nos principais setores da sociedade, incluindo a própria política. Há feudos intocáveis a quem Dilma e Lula se curvaram, talvez por conveniência ou falta de coragem. O resultado das eleições presidenciais reflete um país dividido. Divisão que não é entre pobres e ricos, pois, se o Aécio representa os ricos como pregam, ele uma votação muito menor do que os 48%. Também não é entre patrões e empregados, pois os patrões, que teoricamente votaram no Aécio, representam bem menos que os 48%. Entre sulistas e nordestinos também não se pode estabelecer uma divisão, pois o Rio Grande do Sul não tem 46% de nordestinos que votam. A divisão também não é entre os satisfeitos e os descontentes, porque os 52% que votaram na Dilma não podem estar satisfeitos com as condições dos hospitais e a inseguranças nas ruas. A divisão está entre aqueles para quem o voto representa uma forma de retribuir a um favor e aqueles que ainda esperam por favores. Uns olham para trás, outros para frente. E os que se abstiveram do voto, ou votaram em branco ou nulo? Talvez foi a forma mais coerente que encontraram de expressar a desesperança que sentem. O que o Josemar quer, como todo o jovem que se preze, é um futuro, e o Brasil, da forma como vem sendo governado, não projeta um futuro com dignidade. Basta ter um pouquinho de visão ampliada, privilegio daqueles que estão um pouco além do mundo da necessidade, para se sentir traído e abandonado. O que direi a meus filhos quando me perguntarem sobre o futuro do Brasil? A cada dia que passa mais brasileiros perdem a sua brasilidade. Tomara que aqueles que reelegeram a presidente Dilma, por terem um melhor diálogo com ela, consigam cobrar pela reforma política e tributária. Caso contrário, daqui há 12 anos, quando depois de Dilma teremos mais dois mandatos de Lula, veremos que nada adiantou acreditar na nova ditadura democrática. Marcos Kayser

Não há outra escolha

Será a escolha uma prova de liberdade? E quando escolhem por nós, deixamos de ser livres? Será a escolha um ato exclusivo da nossa vontade? Perguntar e tentar responder são escolhas. Agindo e pensando, escolhemos a todo instante. Ao mesmo tempo, em certas circunstâncias, não temos escolhas. Toda escolha supõe um sujeito que escolhe  e, muitas vezes, somos escolhidos por um outro sujeito. Nada mal quando esta escolha é por uma bela causa. No nosso nascimento fomos escolhidos e não tivemos escolha. É uma escolha dos pais, que também não escolhem seus nascimentos. Enquanto bebês, não temos muitas escolhas. Talvez rir ou chorar, o que está mais para uma reação primitiva, do que para uma escolha criativa. Ainda crianças nossas escolhas são muito limitadas, com exceção daquelas educadas no que chamam de educação moderna, sem limites, que tudo podem. Prepotência, baixa tolerância à frustração e solidão são algumas consequências leves deste tipo de educação, em que a criança tem todo o poder de escolher, descartar e voltar a escolher. Movimento sem fim, alimentado pelo prazer da escolha pela escolha. Há indícios de que as melhores escolhas na vida, ou as mais responsáveis, requerem um amadurecimento do sujeito que escolhe. Amadurecimento que começa com o aprendizado de que nem tudo pode. O adolescente acredita ser “grande” e ter a maturidade necessária para realizar as próprias escolhas. Ainda não tem, mas é na adolescência que surge a oportunidade para o adolescente começar a exercitar sua capacidade de escolha. Nesta fase o melhor é fazer escolhas compartilhadas, com quem se tem intimidade. E como é bom escolher junto! Um exemplo é a escolha da faculdade, momento difícil para quem ainda é iniciante na arte de escolher. Responsabilidade demais para tão pouca experiência. Sorte de quem pode contar com pais presentes que dão o suporte necessário a uma escolha bem pensada. O que não garante êxito, mas ajuda a aprender a assumir os riscos inerentes a toda escolha e aceitar suas inevitáveis perdas.  Isso mesmo, toda escolha implica em perdas e tem muito adulto que não sabe perder. Sempre haverá o não escolhido, o que foi rejeitado e, quem sabe, perdido. Dilema humano para o qual não há escolha, a não ser a aceitação. O enfrentamento da dor da perda, do arrependimento, da culpa, nos torna ainda mais humanos. Dependendo da forma com fomos criados e educados, de como aprendemos a ser livres e, ao mesmo tempo, responsáveis, teremos mais ou menos condições de superar os traumas e partir para as próximas escolhas.  Diz Sartre que “estamos condenados a ser livres”, ou seja, estamos condenados à liberdade de escolher, e sermos responsáveis por nossas escolhas, seja qual for o contexto histórico e cultural em que vivemos. Isso é ser livre e não tem como escapar. A responsabilidade é de cada um, de seus desejos e medos, até mesmo quando escolhemos nos omitir. Por consequência, estamos condenados à culpa. Culpa por ter prejudicado o outro com uma determinada escolha. Culpa por ter escolhido não escolher. Culpa por não ter feito a melhor escolha. Há escolhas que fazem viver, outras morrer. Escolhas que podem mudar a vida de uma pessoa, de uma cidade, de um estado e de um país. Resta-nos aprender com as boas e más escolhas e escolher, escolher e, novamente, escolher. Não há outra escolha! Marcos Kayser

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