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OI…MigUxXxUxXx!!!!! xXxeGaMuxXx KUM + 1 texXxtEEnhu IncRivEu PRAH VuxXxeIxXx!!!!!

Calma, nosso blog não foi hackeado. A frase acima é um exemplo de Miguxês, um tipo de fala que já foi muito comum em fotologs e comunidades do Orkut. O nome vem de “miguxo”, uma corruptela de “amiguxo”, ou “amiguinho”.

Esse fenômeno constitui um socioleto. Segundo os linguistas, trata-se de um conjunto de expressões e gírias comuns a um grupo de pessoas. No caso, a presença do Miguxês era constante em ambientes on-line da década passada. Até que tudo mudou.

O que será que houve para esse estilo tão peculiar praticamente desaparecer das redes sociais? Vamos desvendar esse mistério no post de hoje.

Internetês: o socioleto da internet vazou para a grande mídia

Para entender a ascensão e a queda do Miguxês, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Nossa jornada começa pelo Internetês arcaico, cujo principal objetivo era acelerar a comunicação. Basicamente, os internautas da década de 1990 popularizaram abreviações como kd (“cadê”), vc (você) e blz (“beleza”).

Não chegava a ser uma novidade. Esse recurso era empregado desde a Idade Média para tornar os processos de impressão mais rápidos. De onde você acha que vem “etc.”, a abreviação para et cætera (“e outras coisas”)?

Porém, aquele jeito de se comunicar em salas de bate-papo ou via SMS parecia diferente. Havia uma transformação acontecendo ali, ou assim pensaram alguns representantes da grande mídia.

Em 2005, no embalo do Internetês, a empresa de telefonia Vivo lançou um novo pacote de serviços mobile. A estratégia publicitária incentivava o público a usar os polegares para trocar mensagens – numa época em que a navegação pelo celular ainda era pouco comum. Surgia a Revolução dos Dedos. Ou melhor: a Revolucaum dos Ddos, como o título da campanha foi estilizado.

As ações previam filmes para TV, anúncios em revistas e até um dicionário de Ddonês, a “linguagem cifrada” dos jovens. Só que o conceito não pegou. Com um breve exercício de arqueologia nos fóruns esquecidos da web, chegamos a um comentário que resume por quê. Assim dizia um usuário do Hard Mob:

prr# demorei para me tocar nos “dedos” eaheauehue

eu tava lendo “revolucao dos d-d-o-s” (dê-dê-ó-éssi)

Algo semelhante ocorreu tempos depois, quando o canal por assinatura Telecine Premium estreou a sessão Cyber Movie. As legendas eram escritas com abreviações e corruptelas típicas dos comunicadores instantâneos.

A pesquisadora Denise Telles Leme Palmiere analisou o caso no periódico acadêmico Estudos Linguísticos. Conforme o artigo, os telespectadores demonstravam estranhamento ao verem, na TV, uma escrita do contexto digital. Mesmo o público-alvo, como um adolescente de 14 anos, criticava a iniciativa:

Não consegui entender pacas do filme, isso porque estava tentando decifrar certas abreviações que me confundiam.

Ou seja: a Revolucaum dos Ddos e o Cyber Movie falharam porque tentaram massificar fenômenos que só funcionavam na web. O Internetês não havia surgido para substituir o Português. O Miguxês, muito menos.

cyber-movie

Cyber Movie usava Internetês nas legendas.

Do Internetês para o Miguxês

Com o surgimento dos sites de redes sociais, a comunicação mediada por computador ganhou proporções maiores. Acontece que muita gente ainda não entendia as lógicas dos serviços on-line. Era preciso aprender – ou desenvolver – outras gramáticas.

O Miguxês despontou nesse cenário. Não tinha nada a ver com praticidade, ao contrário do Internetês clássico. A ideia era transmitir sentimentos por meio da escrita.

Sem a entonação da fala, como alguém conseguiria diferenciar uma ironia de um comentário sério? Algumas pessoas utilizavam emoticons (que, mais tarde, cederiam lugar aos emojis). Outras infantilizavam as palavras. Elas trocavam S por X, R por L, O por U, E por I. Aboliam acentos gráficos. Intercalavam letras maiúsculas e minúsculas. Abusavam das reticências e das exclamações. Em resumo, tornavam a mensagem mais fofa e carinhosa.

O socioleto já demonstrava sua força no início do século XXI. No entanto, o auge se deu entre os anos de 2007 e 2008. Foi nesse período que a linguagem dos miguxos se tornou onipresente em blogs e comunidades digitais, inclusive ganhando um tradutor automático. Bastava inserir qualquer frase no MiGuXeiToR e ele fazia a mágica. Veja:

Português:

Olá, leitores e leitoras do blog da TCA. Este é um exemplo de texto traduzido do Português brasileiro para o Miguxês.

Miguxês:

olah…leITorExXx I LEITORAxXx dU blog dah TcAH…… eSti Eh 1 ExXxemplu DI TExXxTu TraDuZIDU Du PoRtuGueIxXx BRaSIlEiRU prU MIGuxXxEIxXx……

Não demorou muito para o tema suscitar debates. Em entrevista ao Jornal do Brasil, o gramático Evanildo Bechara, imortal da Academia Brasileira de Letras, afirmou que Miguxês também era Português.

É que todo idioma possui variações linguísticas. Por exemplo, embora a norma-padrão defina que o plural é “nossos amigos são legais”, muitos gaúchos “comem” os ésses na língua falada. “Nossos amigo são legal” acaba sendo perfeitamente aceitável numa situação informal de linguagem. Só não vale escrever assim numa redação de escola!

Desse modo, “Noxxux MiGuxxUx SauM legaixxx!!” seria uma variação possível, dentro do contexto de uma comunidade do Orkut. “É como a roupa: você tem a de dormir, a de passear, a de trabalhar. Toda essa vestimenta está atrelada às ocasiões. A língua também”, comparava Bechara em 2008.

miguxês no orkut

Miguxês era bastante comum no Orkut. Imagens: Reprodução

A queda do Miguxês

Vale lembrar que o Internetês e o Miguxês não são os únicos linguajares nascidos na web. Há o Tiopês, que grafa palavras propositalmente errado (“corrão” em vez de “corram”). Tem o Leet, que troca letras por números para driblar a censura dos algoritmos (assim dá para falar abertamente de s3x0 e dr0g4s). E a lista segue.

Cada uma dessas variantes tem um propósito específico. O conflito ocorre quando a fala é transposta para um lugar inadequado. Observe este recorde de 2009, extraído do GUJ, fórum com perguntas e respostas sobre programação.

Percebi em alguns posts recentes que pessoas de boa vontade, com intenção de ajudar a quem recorre ao GUJ, simplesmente não o conseguem fazer porque a descrição do problema é quase ininteligível. Algumas pessoas usam e abusam do miguxês ao postarem suas dúvidas, e para quem não faz parte dessa geração os textos são incompreensíveis.

Eis o ponto. O objetivo de um idioma escrito é transmitir uma mensagem. Quanto mais complicado ele se torna, mais restrita vai ficando a comunicação. Por isso, nos ambientes onde o Miguxês não era bem-vindo, ele acabava perdendo território para o Português tradicional.

Ainda em 2009, em reportagem do UOL, a linguista Mariléia Silva dos Reis explicou que os adolescentes utilizavam coloquialismos da internet apenas nas conversas de MSN. Nas redações escolares, sempre predominou a norma-padrão. Os jovens sabiam como se comportar fora de sua bolha fOfuXxXka.

Desde então eles cresceram, vieram as responsabilidades adultas, o MSN morreu, os e-mails viraram ferramenta corporativa e já não era mais necessário usar X no lugar do S. Chegou o momento em que essa turma abandonou o bermudão e o boné para vestir fatiota e sapato social.

É mais ou menos assim com qualquer hype da web. Muitos hábitos surgem, vários deles desaparecem e uns poucos sobrevivem ao tempo. No caso do Miguxês, a brincadeira simplesmente perdeu a relevância. Ainda não foi dessa vez que jogamos fora o Aurélio e o Houaiss – pelo menos, enquanto não vier a próxima febre linguística.

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