Apesar de considerarmos, há um bom tempo, a infância como um período específico do desenvolvimento, é recente o olhar sobre o bebê, especialmente entre 0 - 2 anos de idade. De um lugar de quase de "inexistência" como pessoa, de considerados "incapazes dos cinco sentidos e de sentir prazer ou dor, tratados enfim como um tubo digestivo de funcionamento subcortical" (Celso Gutfreind) - pelos menos aos olhos científicos, sociais e políticos - hoje o bebê é capa de muitas revistas. Bebês sentem, observam, pensam, agem, promovem e sustentam interações. O bebê pode muito, e provavelmente muito mais do que sabemos até agora. Estudos em diferentes áreas vêm confirmando a idéia de que, mesmo que muito ainda possamos fazer até o fim de nossa vida, nunca aprenderemos tanto, tão rapidamente e em tão pouco tempo, como nos primeiros anos de vida. As experiências destes anos iniciais são fundamentais. Nelas ancoramos nossa estrutura de "ser" e de estar no mundo - tanto nosso ser orgânico, especialmente neuroanatômico, quanto nosso ser psíquico.
Sentir-se um ser, saber ser, saber sobre outros seres, interessar-se por outros seres... Enfim, o bebê que fomos estará sempre lá, enraizando nosso mundo interno e nosso mundo relacional.
Pesquisas sobre as competências dos bebês são cada vez mais divulgadas, e às vezes são retratados quase como "super computadores" a serem desvendados, analisados, guardando potencialidades ainda insuspeitas, guardando promessas de que podemos vir a ser melhores. Tantas descobertas trazem a preocupação dos adultos em "estimular", uma vez que estímulos precoces adequados podem ser considerados decisivos para o desenvolvimento. Na presença de dificuldades, a clínica da intervenção precoce tem confirmado o potencial do investimento nestes primeiros tempos de vida, facilitando o desenvolvimento e atuando preventivamente. Mas nada disso é predição - "uma grande doença do século", como diz Bernard Golse (psicanalista dedicado a entender o trabalho psíquico dos bebês) Predição é um aprisionamento do futuro. É o outro lado da moeda de todas estas descobertas. É o risco que corremos por melhor intencionados que estejamos.
Imbuídos de um afã preditivo, de moldar "o futuro no bebê", podemos pecar por excesso, expresso em solicitações precoces que nem sempre respeitam as necessidades dos pequenos. Isso pode acontecer quando nos concentramos mais nas competências a serem desenvolvidas ou comportamentos esperados, ou nos materiais estimulantes, do que em entender a quantas anda a interação "pessoa-a-pessoa" com o bebê - o humano é o primeiro e principal objeto de interesse de um bebê. Uma necessidade básica, pano de fundo para sentir-se estimulado pelo e para o mundo, é o que poderíamos chamar de "base (relacional) segura". Trata-se de algo simples em sua complexidade - sentir que sua segurança e permanência neste mundo estão garantidas. Essa segurança não significa apenas ter um corpo cuidado, higienizado, protegido de riscos físicos e com uma rotina organizada - coisas por demais importantes, do que, aliás, muitos de nossos bebês ainda estão privados; mas não suficientes. Trata-se de mais, trata-se de contar com pessoas especiais (poucas inicialmente) que o bebê possa crer que o conhecem bem e que ele também pode conhecer. Pessoas (poucas inicialmente) que estarão previsivelmente disponíveis - para ajudá-lo, quando for preciso, e fundamentalmente para compartilhar e compreender suas descobertas. Para um bebê que conta com companhia humana deste tipo, não é preciso inventar novidades, o banal estará cheio de pura descoberta e prazer. Pequenos inesperados, como uma formiguinha passando na mesa, ou atividades rotineiras como a troca, a alimentação, o banho, o passeio no jardim, se transformam em fonte de aprendizagem - e o bebê pode exibir aquele ar de cientista, de filósofo, de contador de histórias...
Numa época em que bebês pertencem aos espaços públicos cada vez mais cedo, que freqüentam a escola antes do primeiro ano, manter nossa "esperança" no futuro talvez passe por não perdermos de vista que boa estimulação não existe fora de boa interação humana. Boa interação acontece com respeito às necessidades atuais do bebê, que o faz sentir que estamos mais interessados em como ele sente e pensa hoje, mais interessados (ou pelo menos tanto quanto) nele próprio do que nas competências que ele está desenvolvendo para o amanhã. Criança sente esta sutil, mas decisiva diferença. E isso tem papel para que ela desenvolva, justamente, uma das primeiras "competências": que é a própria esperança, a esperança própria, a "confiança básica" - não como um "bebê esperança do mundo adulto", mas como "um bebê com esperança" quanto a sua capacidade de constituir bons laços humanos, duradouros, profundos e respeitosos. Gente - na figura de pessoas especiais, continuadas e envolvidas afetivamente - ainda é o primeiro e imprescindível estímulo para o bom desenvolvimento de um bebê.
Julia Cristina dos Santos