Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é filósofo e empresário. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde busca investigar a "mecânica do desejo nas relações de poder", e o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é um dos fundadores e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Idealizador do Scopi, software líder de mercado, que tem como objetivo ajudar as organizações a criarem a cultura do planejamento.

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Archive for the ‘Artigos da aldeia global’ Category

Não há outra escolha

Será a escolha uma prova de liberdade? E quando escolhem por nós, deixamos de ser livres? Será a escolha um ato exclusivo da nossa vontade? Perguntar e tentar responder são escolhas. Agindo e pensando, escolhemos a todo instante. Ao mesmo tempo, em certas circunstâncias, não temos escolhas. Toda escolha supõe um sujeito que escolhe  e, muitas vezes, somos escolhidos por um outro sujeito. Nada mal quando esta escolha é por uma bela causa. No nosso nascimento fomos escolhidos e não tivemos escolha. É uma escolha dos pais, que também não escolhem seus nascimentos. Enquanto bebês, não temos muitas escolhas. Talvez rir ou chorar, o que está mais para uma reação primitiva, do que para uma escolha criativa. Ainda crianças nossas escolhas são muito limitadas, com exceção daquelas educadas no que chamam de educação moderna, sem limites, que tudo podem. Prepotência, baixa tolerância à frustração e solidão são algumas consequências leves deste tipo de educação, em que a criança tem todo o poder de escolher, descartar e voltar a escolher. Movimento sem fim, alimentado pelo prazer da escolha pela escolha. Há indícios de que as melhores escolhas na vida, ou as mais responsáveis, requerem um amadurecimento do sujeito que escolhe. Amadurecimento que começa com o aprendizado de que nem tudo pode. O adolescente acredita ser “grande” e ter a maturidade necessária para realizar as próprias escolhas. Ainda não tem, mas é na adolescência que surge a oportunidade para o adolescente começar a exercitar sua capacidade de escolha. Nesta fase o melhor é fazer escolhas compartilhadas, com quem se tem intimidade. E como é bom escolher junto! Um exemplo é a escolha da faculdade, momento difícil para quem ainda é iniciante na arte de escolher. Responsabilidade demais para tão pouca experiência. Sorte de quem pode contar com pais presentes que dão o suporte necessário a uma escolha bem pensada. O que não garante êxito, mas ajuda a aprender a assumir os riscos inerentes a toda escolha e aceitar suas inevitáveis perdas.  Isso mesmo, toda escolha implica em perdas e tem muito adulto que não sabe perder. Sempre haverá o não escolhido, o que foi rejeitado e, quem sabe, perdido. Dilema humano para o qual não há escolha, a não ser a aceitação. O enfrentamento da dor da perda, do arrependimento, da culpa, nos torna ainda mais humanos. Dependendo da forma com fomos criados e educados, de como aprendemos a ser livres e, ao mesmo tempo, responsáveis, teremos mais ou menos condições de superar os traumas e partir para as próximas escolhas.  Diz Sartre que “estamos condenados a ser livres”, ou seja, estamos condenados à liberdade de escolher, e sermos responsáveis por nossas escolhas, seja qual for o contexto histórico e cultural em que vivemos. Isso é ser livre e não tem como escapar. A responsabilidade é de cada um, de seus desejos e medos, até mesmo quando escolhemos nos omitir. Por consequência, estamos condenados à culpa. Culpa por ter prejudicado o outro com uma determinada escolha. Culpa por ter escolhido não escolher. Culpa por não ter feito a melhor escolha. Há escolhas que fazem viver, outras morrer. Escolhas que podem mudar a vida de uma pessoa, de uma cidade, de um estado e de um país. Resta-nos aprender com as boas e más escolhas e escolher, escolher e, novamente, escolher. Não há outra escolha! Marcos Kayser

O carinho do professor

Vivemos num país exemplar em edição de leis. Tem lei para tudo. O problema que temos é não cumprir a lei. Também não cumpre quem tem o dever de fazê-la cumprir e viva a impunidade! Uma lei que considero o atestado da impunidade é esta lei que proíbe as escolas de expulsarem alunos que não se enquadrem aos seus princípios. Fica proibido proibir. Se bastasse a lei, deveríamos ter lei que obrigasse os pais a participarem ativamente da educação escolar dos seus filhos, como também lei que obrigasse os professores a ensinarem bem e criarem vínculos com seus alunos. Dizem os especialistas em educação que o vínculo afetivo é um ponto fundamental da relação professor aluno. Neste final de semana fui ao velório da dna. Zenia Jung, que foi minha professora como de tantos. Lá tive a alegria de rever alguns professores, dentre eles o professor Roberto Dienstmann que me deu um caloroso e saudoso abraço. As palavras do professor Roberto eram de carinho, não só comigo, mas também com outros alunos que relembramos juntos.  Saí de lá com uma tendência a pensar que os professores de antigamente tinham um vínculo afetivo maior com seus alunos. Isso significa que eram mais tocados emocionalmente por seus alunos e que em tempos passados a troca de carinho entre aluno e professor era bem mais intensa. Curioso que os professores da antiga eram mais rígidos e até punitivos. Não sou do tempo da palmatória e não compartilho destes métodos de repressão, mas há alguns tipos de punição que, dependendo do contexto, manifestam afeto. Depois da palmada da mãe vinha o colo e o abraço e o carinho fazia valer a lei. Por falar em palmada, é mais uma lei. Vejo que a perda da intensidade do afeto, pelo menos numa comparação com 40 anos atrás, não se restringe apenas ao espaço escolar, é um aspecto do nosso atual modelo de sociedade, onde cada indivíduo é mais individual, o que alguns teóricos chamam de individualismo possessivo. As opções de consumo são muito maiores, dividindo mais a nossa atenção e o nosso tempo, o que faz com que tenhamos menos tempo disponível para dedicar aos outros. Outro fator é a tecnologia que nos traz ganhos de autonomia, permitindo cumprir certas tarefas sem depender dos outros. Então, se assim for, professores e alunos não estão absolvidos, mas também não estão sozinhos na sociedade da falta do carinho.  Obrigado professor Roberto pelo papo e pelo abraço! Marcos Kayser

Vamos adotar os alemães?

Fez-se justiça no futebol. Logo o futebol que muitas vezes não é justo. O sorriso venceu o choro. O planejamento, o improviso. A glória, o lamento. Venceu a educação, a inteligência, a confiança, o equilíbrio emocional. Venceu o que chamamos de “primeiro mundo”, mas que pode ser apreendido por quem se reconhece menor. É bom demais ver ganhar quem merece! Que aula nos deu a Alemanha. Aula de cultura, engajamento e, principalmente, planejamento. Até a camisa, semelhante a do Flamengo, foi pensada. A presença das famílias sem prejudicar a concentração. E conseguiram uma façanha, foram mais alegres do que nós. Os alemães aprenderam com a derrota para o Brasil em 2002. Será que nos falta humildade ou inteligência para identificar nossas fraquezas e redesenhar um novo caminho de reconquistas? Pelo que se ouve de quem lidera, infelizmente, nada ou quase nada vamos aprender. O técnico brasileiro diz que estamos no caminho, que foi um apagão, algo momentâneo que não se repete, e, ao dizer isso, desmerece o fato ocorrido, perdendo a oportunidade de ensinar que não basta a motivação, é preciso trabalhar e, muitas vezes, repetir incansavelmente até acertar. No caso do futebol isso se chama treinar. Mas não nosso treinador preferiu a estratégia do jeitinho e da malandragem. Fez de conta que treinou um time e escalou outro. Achou que a psicologia motivacional eliminaria a insegurança de um grupo sem preparo técnico e emocional. Ao em vez de planejar as melhores estratégias, treinar e trabalhar, ficou preocupado em enganar a imprensa e o time adversário, dando coletes a quem não ia jogar. Não temos os jogadores mais talentosos do mundo, mas o que temos não justifica tomar 7 à 1. Equipes com a Argélia e Gana que fizeram frente a Alemanha não estão acima do nosso talento. A maior perda, não é tomar 7. A maior perda é deixar de aprender com tudo que esta tragédia dos gramados nos ensina. Tivemos uma aula que não se restringe ao futebol. O fracasso, o vexame, a humilhação sofrida, transcendem as quatro linhas e precisam sacudir a nossa nação. Assim como a própria Alemanha reconstruiu a sua seleção, pós 2002, e o seu país depois da segunda guerra mundial, nós poderíamos pensar em reconstruir nosso país. Estamos diante de uma oportunidade de superação, de evolução para um futuro melhor, não só no campo de futebol, mas em todos aqueles campos de abundante carência de condições. Nós poderíamos estar no lugar deles, mas não basta querer. É preciso pensar nas profundezas, planejar nos detalhes, trabalhar, trabalhar, trabalhar, para só depois comemorar. Para planejar, alguém já ouvir falar no Scopi – Software de Planejamento e Gerenciamento de Projetos? Certamente que sim e está aí uma boa ferramenta para ajudar a planejar (www.scopi.com.br).  Se não somos mais o país do futebol, o que seremos? Quem sabe, o futebol nos ensina e adotemos as virtudes dos alemães?

Marcos Kayser

Vem aí a Copa das Copas

Acompanho Copas do Mundo, com a atenção de quem tem paixão por futebol, desde a Copa de 74 na Alemanha, em que o Brasil ficou no quarto lugar, depois de perder para a Polônia, do jogador Lato. Lato, que por muito tempo foi o ponteiro direito do meu time de futebol de botão. Depois veio a Copa de 78 na Argentina, onde Kemps fez a diferença e a Argentina foi campeã, favorecida por aquele jogo suspeito contra o Peru. A de 82, foi a mais injusta e sofrida para quem acha que o melhor vence. O Brasil tinha a melhor equipe, com Falcão, Zico, Sócrates e companhia e acabou sendo eliminado pela Itália de Paolo Rossi. E daí se sucederam muitas copas e o Brasil por duas vezes sagrou-se campeão até chegarmos na Copa de 2014. A “Copa das Copas” como foi dito, na medida em que tudo vai funcionar como manda e quer a Fifa e o mundo inteiro vai assistir uma copa exemplar em matéria de organização e estrutura do país sede. Para quem não tem partido político, ou melhor, o partido é o Brasil, parece ironia esta citação. Obras inacabadas, greves e serviços de péssima qualidade não dão indícios deste sucesso. Não se trata de pessimismo, muito menos torcer para que dê tudo errado. Trata-se de uma insatisfação realista e legítima, pelo estado das coisas. Há quem lance argumentos esdrúxulos.  Dizem eles: O Brasil deu conta da Copa do Mundo em 1950, por que não daria agora? Se recebeu muito mais gente na Jornada Mundial da Juventude, em uma só cidade, porque teria dificuldades para receber um evento com menos turistas, e espalhados em mais de uma cidade? Por mais que se queira dizer que estamos evoluindo, basta o cotidiano vivido por nós brasileiros para percebermos que a nossa estrutura em itens essenciais está muito aquém da boa referência. A marca Brasil, se antes da Copa já não era forte no quesito seriedade, tem enorme chance de ficar ainda mais arranhada. Dois problemas: a falta de competência para fazer a melhor das Copas, que antes da Copa era uma oportunidade, e a falta de seriedade, caso a “Copa das Copas” não se torne uma verdade. Não reconhecer a ineficiência do Estado brasileiro, é um ato de irresponsabilidade. Na precariedade do contexto, elevar a Copa de 2014 ao potencial de ser a melhor das Copas, aparenta inclusive uma certa falta de humildade. Poderíamos dizer ainda que estão subestimando à inteligência dos brasileiros e dos estrangeiros que estarão presentes na Copa. Assim, não estranho e nem condeno àqueles que assumem não torcer pela seleção brasileira nesta copa, fazendo isso na crença que a vitória teria um efeito anestésico. Alguns dirão que a vitória servirá para melhorar a auto estima. Particularmente, acho que a auto estima do brasileiro se renova no dia a dia, quando somos bem atendidos nos hospitais, quando estamos protegidos pelos policiais, quando nossas escolas alcançam índices de qualidade internacionais.

Desejar para frente sem deixar de olhar para trás

É humano desejar mais e mais, num movimento contínuo, de um desejo a outro sem cessar. Quem condenará aquele que deseja  viver mais e mais? Esse desejo, que todos tem, Spinoza e Hobbes, chamavam de conatus. O desejo é a essência do homem, diz Spinoza. Ricos e pobres, mais e menos poderosos, todos desejam ao seu modo. O que muda são os objetos desejados. E nem todos os objetos são palpáveis e mensuráveis. Uns desejam um carrinho novo, outros carinho de novo. Basta estar vivo para desejar e só deseja quem está vivo. Não há vivente que não deseje. Até os entediados e deprimidos desejam. Desejam o nada, desejam a morte. A certa altura do “campeonato da existência”, uns realizam uma espécie de balanço para ver quais desejos foram satisfeitos, quais foram frustrados e quais ainda não foram realizados. Uns até vivem sem fazer esta anamnésia como diziam os gregos, talvez por receio de olhar para trás e encontrar mais culpas e decepções, do que desejos bem satisfeitos. Há os que temem constatar que a vida passou muito rápido e o passado pouco tem a significar. Refletir sobre a própria existência não é tarefa fácil. Minha natureza inquieta provoca desejos, não necessariamente inéditos. Muitos são desejos que já desejei e realizei. Desejo de criar projetos na empresa, desejo de estar junto dos filhos, desejo de atuar em movimentos sociais, desejo de me relacionar com pessoas que me atraem. Na verdade, tudo isso já tem um passado. Fiz e faço, mas por que descontinuar? Dirão que sou rotineiro. Direi que sou um rotineiro inovador, reinventando a rotina e desfrutando do seu prazer, dia a dia.  Olhar pra trás ajuda a não ignorar o que de bom se conseguiu construir e, ao mesmo tempo, descartar aquilo que não cabe mais. No lugar do que foi descartado, abro o espaço ao novo que até então não tinha passado.  Assim, velho e novo andam de mãos dadas, sem brigar.

Marcos Kayser

Amar, Acreditar e Aceitar

Um amigo pediu que eu citasse 3 verbos que seriam aqueles que eu mais gosto ou gostaria de conjugar. Pensei e dispareii: Amar, Acreditar e Aceitar, Por coincidência, 3 A’s. Amar os amores que tenho (e que sorte a minha que tenho!). Acreditar no amor que virá (dos próprios amores que tenho e de outros que poderei conquistar). Aceitar o amor que se foi (como tudo na vida, amor também se vai). Um dos amores que tenho é o amor pela vida, que me faz sofrer como todo o amor. Amo tanto que ainda não consegui entender o fato de morrer. Talvez um dia eu aprenda a amar sem me apegar. Será??? Dito por outro amigo: o caminho é a resignação. Sei, mas requer uma capacidade imensa de aceitação. Talvez aceitar, seja dos três verbos aquele que mais tenho que exercitar. Amar é viver e só o amor torna a vida amável. Não é verdade que o amor é mais forte do que a morte. Até quem ama, morre, o que, cá entre nós, é uma baita sacanagem para com os amantes, Então, sem outra alternativa, aceitemos a morte, mas sem deixar de amar. “É necessário amar algum objeto e nos unir a ele para existir”, diz Espinosa. Para aceitar é preciso acreditar. Para acreditar é preciso amar, E para amar? Antes de mais nada, admitir humildemente que somos fracos demais para nos bastarmos. Depois, conjugar o verbo amar em todas as pessoas. Amor de amante, amor de pai, amor de mãe, amor de filho, amor de amigo, amor de cidadão. Perguntei ao meu amigo quais eram os verbos dele e ele me respondeu que ia pensar… Disse a ele: pensa, mas não deixa de amar. Se doer, aceita, mas não deixa de acreditar.
Marcos Kayser

A imortalidade parental

Por que ter filhos? É da filosofia a natureza de perguntar os porquês, mas quando o assunto é filhos, crianças e mulheres o discurso filosófico é bem mais restrito. Quanto as mulheres, acredito que o motivo está relacionado à cultura antiga de considerar a mulher como um ser inferior e, para muitos, um ser incompleto, um quase ser. Algo absurdo para os dias atuais em que as mulheres, a cada dia, reafirmam seu espaço. Que bom, para elas e para eles (nós)! Quanto aos filhos e as crianças, o fato de muitos filósofos não terem passado pela experiência da paternidade, pode explicar, em parte, uma eventual renegação do tema. Hegel foi um dos filósofos que fugiu à regra. “É apenas nas crianças que a unidade do matrimônio passa a existir, uma vez que ambos amam os filhos como o próprio amor”, diz Hegel.  Para ele, não ter filhos sinaliza uma  falta na natureza amorosa de um casal. São os filhos que concretizam a família. Os filhos geram também o sentimento de que há mais vida por vir depois da morte dos pais, já que quando estes se vão, pelo menos é assim na maioria das vezes, os filhos permanecem existindo, perpetuando a vida dos pais tanto pelos genes quanto pela memória. Quando vem ao mundo, o filho se torna a memória do pai e da mãe, o arquivo reunido, daqueles que o criaram, seja com amor ou desamor. Sim, há pais que não amam seus filhos, por mais absurdo que pareça. Algo impensável, mas real. Particularmente, os filhos me deram a dimensão de um amor incomparável. Talvez seja o que mais se assemelha ao amor cristão, aquele que dá a vida por seu irmão.  Junto deste amor incomparável vem o apego, aquele sentimento de não querer largar mais, por mais que ouvimos a pregação de que geramos os filhos para o mundo. Apego que os estóicos e budistas não aconselham, já que o apego é sinônimo de sofrimento. Filosoficamente, temos um problema: será possível amar sem se apegar? Os filhos não existem para salvar a união dos pais, nem para dar sentido as nossas vidas.  Eles não merecem esta sobre carga. Apesar de significarem tudo ou quase tudo para nós pais, chega o tempo em que eles se desapegam, independentemente do nosso desapego. Claro que há exceções e muitas vezes representam certas patologias. Mesmo assim, os filhos continuarão assegurando nossa imortalidade parental e o amor que temos por eles ninguém tira mais. Dá trabalho, traz preocupação, mas ter filhos é bom demais! Muito obrigado por existirem!

“Deixar na mão” não é mais exceção

As relações comerciais estão vivendo um momento difícil. Parece que deixar o outro esperando ou não cumprir com o combinado, virou rotina. E como a maioria é assim, quem faz não se importa muito com as consequências. As empresas prestadoras de serviços e os profissionais liberais são os campeões. Na semana passada, me chamou a atenção uma sequência de episódios que aconteceram comigo, no mesmo dia. As pessoas marcaram, assumiram compromisso e não cumpriram.  Não dá para dizer que são pessoas sem formação e educação. Teoricamente, todas tem uma boa noção do que é responsabilidade, comprometimento, dever. Foi-se o tempo em que tudo era feito pelo cliente. Não basta requisitar uma só vez, tem que insistir e, quem sabe, suplicar e pedir “pelo amor de Deus”. Entre as que me “aprontaram”, duas eram da área da saúde, uma da eletrônica e outra do comércio. Foram quatro episódios, um na sequência do outro. Chegou a ser engraçado e minha sorte foi que não era nada urgente, pois, certamente, não seria muito diferente. Talvez ,uma das causas, injustificável, é claro, seja que as pessoas estão com serviço de sobra e perder um cliente não traz preocupação. É a velha questão: os fins justificando os meios. Cumpre-se uma obrigação só pensando no que pode ocorrer, o que vai ganhar ou perder. Como “deixar na mão” é quase uma máxima, que se repete com a maioria, pensam que dificilmente vão perder o cliente. Onde estará a noção do dever? Dos quatro, dois ficaram de me dar retorno, aquele conhecido “sem falta”, e nada. Isso que liguei mais de uma vez. Os outros dois marcaram, combinaram horário e não apareceram. Fiquei esperando, deixei de fazer outras coisas, não menos importantes, e, além da frustração, terei que retomar o contato com os quatro, correndo o risco de mais uma vez ser “deixado na mão”. Como tenho uma empresa de prestação de serviços e, junto dos meus sócios, ficamos preocupados que esta desconsideração tenha se espalhado feito um vírus e também esteja nos atingindo, peço que aquele que marcar algum tipo de serviço conosco e não for correspondido, ligue imediatamente para algum nós. Ainda somos do tempo em que “ouvir o cliente é obrigação, atendê-lo bem é realização”.

Marcos Kayser

Professor não é mais doutor

Hoje é dia do professor e tenho uma relação íntima com esta figura. Minha mãe, a dna. Mary, era professora. Professora muito braba, mas muito querida e respeitada. Tenho tias professoras, tia Mairy, tia Branca, não tão brabas e não menos respeitadas. Professoras para quem “batíamos continência” com certo medo, mas também como sinal de carinho e respeito. Dna Zélia, dna Dula, dna Zênia, as professoras do ensino primário, hoje chamado fundamental, ficaram registradas com mais intensidade na memória. Talvez porque elas assumiam um papel de segunda mãe. Professor que na época tinha status de doutor. Hoje nem o próprio doutor tem status de doutor. No caso dos professores, além do respeito, perdeu-se também uma dose de afeto que permeava a relação. Pode ser reflexo de uma sociedade diferente, onde as pessoas estão mais distantes uma das outras. Vejam o que fazemos no Facebook. Declaramos sentimentos e momentos, mas nos limitamos ao mundo da virtualização. Há uma desconfiança generalizada entre as pessoas e para com as instituições. Haverá alguém que cumpre as normas abrindo mão de seus desejos particulares, agindo tão somente porque o dever comanda? Haverá alguém apaixonado que age por amor? E onde fica o professor? Na época da minha mãe e das minhas tias, isso aconteceu a 50 anos atrás, a formação era outra. As Faculdades eram muito mais austeras. Hoje o problema começa já na formação. A grande maioria dos professores recebem a intitulação sem terem o preparo prático para enfrentarem o dilema da sala de aula: como fazer o aluno “ficar ligado”? Resultado: completa frustração, tanto do aluno como do professor. O aluno criança ainda suporta ir à escola enquanto lá estiver brincando nos anos iniciais. Depois da 5ª série, quando cessam as brincadeiras e não há mais a dedicação exclusiva de um professor, se inicia o processo de desencantamento e deseducação. Já o professor se frustra pela falta de reconhecimento do próprio aluno e pela falta de futuro, sem falar no problema da baixa remuneração. Na época da minha mãe, o professor ganhava o suficiente para comprar o seu carro e construir a sua casa. Este ponto é polêmico. A remuneração é baixa, mas, para muitos, os professores não fazem por merecer uma melhor condição. No dia do professor não quero entrar nesta discussão. Hoje, quero homenagear aqueles professores que ainda sonham, dão a vida por esta profissão e trabalham com muita paixão. Parabéns professor!

Marcos Kayser

Vale do Silício: ciclo virtuoso da colaboração

Na Missão Internacional ao Vale do Silício, na Califórnia, confirmei que, no vale da inovação, o conceito mais introjetado e priorizado é o conceito da colaboração. Colaboração entre empresas e entre pessoas profissionais e cidadãs. Visitando uma aceleradora de empresas, perguntei a que atribuíam o senso de colaboração e me responderam que isso estava na cultura de todos daquele lugar, que,  de uma forma ou de outra, receberam ajuda algum dia e se sentem no dever de retribuir. O espírito colaborativo virou um ciclo virtuoso. É fácil também identificar que não há empresa sem planejamento estratégico, não há abertura de empresa sem plano de negócios, não há trabalho sem metas e controles. A liberdade de levar o cachorro ou um aquário de estimação para o trabalho, de fazer a qualquer momento um lanche, de sair para jogar um vôlei no pátio ou nadar numa piscina com correnteza, fatos que presenciei na Google, é partilhada de um alto grau de exigência para que as tarefas e as metas sejam cumpridas no prazo e com qualidade. A piscina chama a atenção. Ela tem em torno de 2 por 3 metros, espaço para um solitário nadador. A surpresa é que enquanto tem um nadador na piscina, tem um salva vida do lado de fora, prestando atenção para intervir, caso necessário for. Um país de primeiro mundo está nesta posição porque se preocupa com segurança e tem leis para serem cumpridas, sem exceções. Se há dois aspectos que se destacam na cultura americana, são eles o planejamento e a disciplina. A metodologia PDCA, do planejar, desenvolver, controlar e ajustar, está em todo o lugar. Usam ferramentas de planejamento e acompanhamento como o  Scopi – Software de Planejamento e Gerenciamento de Projetos (www.scopi.com.br).  Se não somos mais o país do futebol, o que seremos? As ideias novas, as inovações, não só em produtos, mas em processos, são incentivas naturalmente e, na maioria dos casos, não há premiação financeira para quem apresentar e desenvolver uma ideia. A premiação está no orgulho de ter tido uma ideia aceita e de ter a competência para concretizá-la. E não só no âmbito empresarial a ordem se evidencia, caminhando pelas ruas das cidades,  tanto nas grandes como nas pequenas,  vê-se muita organização e limpeza. Quem perturbar a ordem é punido num curto intervalo de tempo.  No trânsito, por exemplo, não é só o motorista que leva multa, o pedestre que infringir a lei também. Não é a toa que se costuma dizer que “lá as coisas funcionam”. Curioso que não precisa ser americano para aderir a cultura do respeito e da excelência. No Vale do Silício, existem muitos estrangeiros de origem de países do terceiro mundo, como Índia e Brasil. Só que lá, tanto os indianos como os brasileiros, colaboram e se comportam como americanos, por que será?

Marcos Kayser

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