Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é filósofo e empresário. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde busca investigar a "mecânica do desejo nas relações de poder", e o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é um dos fundadores e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Idealizador do Scopi, software líder de mercado, que tem como objetivo ajudar as organizações a criarem a cultura do planejamento.

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Archive for fevereiro, 2018

Iguais e desiguais

Os seres humanos, na condição de indivíduos, possuem aspectos de sua personalidade que os tornam desiguais. Dá para dizer que somos desiguais por natureza. Nascemos desiguais, mas, a natureza, com sua inteligência e beleza, se incumbe de compensar. Todos temos qualidades, habilidades, competências. Tenho uma qualidade que o outro não tem e, ao mesmo tempo, não tenho uma qualidade que o outro tem. Isso, se não iguala, nos aproxima. Se por um lado somos desiguais de fato, por outro devemos ser iguais de direito. Promover esta igualdade de direito compete a sociedade que, dentre suas obrigações, está a de preservar o maior dos direitos, o direito de viver com dignidade, pressupondo oportunidades. Na prática não é assim. Vivemos uma sociedade de desiguais em matéria de direito. Se olharmos para o Brasil, a desigualdade é escancarada e excludente. As próprias leis, que deveriam ter na base a igualdade, desigualam e distanciam um dos outros. Vejam o que é o auxílio moradia previsto em lei. Uma pessoa que recebe um salário superior a 30 mil reais precisa receber ajuda de aluguel? Ainda somos o país da senzala, dos senhores e dos escravos. Como mostram as estatísticas, o Brasil tem uma das maiores desigualdades do mundo e isso vem desde a nossa colonização. Particularmente, penso que a maior fonte de desigualdades reside na educação. Educação que, vai além de replicar conteúdo, ensine a pensar, criar e respeitar o outro. Há crianças que nascem com a perspectiva de cursar uma Universidade e temos aquelas que nascem sem perspectiva de terminar o ensino fundamental. A existência do ensino público e privado já é um sinal de desigualdade. Resultado, num mundo capitalista, onde só temos lugar ao sol com dinheiro, aquele que estuda menos terá muito menos oportunidades de acessar aos bens de consumo que inundam nossas redes sociais. Uma das consequências imediatas desta desigualdade é a violência. O que pensa aquele que não tem dinheiro pra comprar uma bicicleta daquele que circula pela cidade com uma BMW (por favor, não me levem a mal quem tem BMW, kkkk)? O que pensa aquele que, na melhor das hipóteses, se um dia conseguir se aposentar, irá receber um salário mínimo, daquele servidor público que se aposenta aos 50 anos com uma aposentadoria na faixa dos 20 mil reais? A coexistência de leis que garantem privilégios a uma minoria e a falta de boas políticas públicas vão continuar deixando o Brasil cada vez mais desigual e violento.

Por que ficar aqui?

“Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E, contudo, também eu me afasto, sem que possa saber porquê”. Esta frase de Camus serve para pensar as relações amorosas, seja na esfera privada, seja na pública. Tempo de liquidez, como Baumann diz, onde até o amor virou água. Pobre dos apegados, dentre os quais me incluo, que ainda buscam justificativas para ficar vivendo neste país. País injusto, que não reconhece o amor que sinto por ele, me rejeita e me faz sentir um estrangeiro. De pouco tempo para cá, tenho pensado em fazer as malas (“Eu me sinto um estrangeiro. Passageiro de algum trem. Que não passa por aqui. Que não passa de ilusão…”). Chego a me desconhecer. Imagino os que me conhecem. Por muitas vezes tentei convencer a ficar os desengajados (desapegados), que falavam não ver a hora de partir. Atualmente, não me arrisco convencer ninguém. Já me basta tentar convencer a a mim mesmo. Não sou eu que não quero, é o Brasil quem não me quer. Ele sabe que gosto de organização e o que encontro? Desorganização. Parece uma provocação. A ordem, no seu sentido mais amplo, produz coisas boas e traz beleza estética à vida. Eu gosto do belo e quem não gosta? Quem viaja para países considerados do primeiro mundo, destaca a organização como uma das primeiras virtudes a serem percebidas, junto da educação. Ambas andam juntas. A boa educação produz organização. Só não gosta de organização quem se aproveita da desordem. A política opera nesta lógica e alguns outros setores da economia também. Os desorganizados são presas fáceis. Os bancos vibram com aqueles que não conseguem organizar as suas finanças e precisam recorrer a empréstimos, pagando altas taxas de juros. O Brasil é sujo sob o viés estético. Vejam as ruas das cidades, as estradas, os prédios públicos, especialmente os mais antigos, e vai piorar porque os governos estão quebrados. As estruturas vão se deteriorando e carecem de manutenção. Não se planejaram para o longo prazo. O Brasil é sujo sob o viés ético. Vejam a corrupção. Toda a licitação tem seu preço e não baixa dos milhões. Mas um dia vai melhorar. Nós, sociedade, temos que nos organizar. Eu pensava assim há bem pouco tempo. Por dez anos me dediquei a um movimento que tentou planejar, envolver a comunidade, eleger prioridades e ajudar prefeitos a organizar suas cidades, em suas áreas mais fundamentais: educação, saúde, segurança, meio ambiente, desenvolvimento econômico. Morreu porque o brasileiro ainda está educado na cultura do “pão e circo”. Não aprendeu que para conquistar coisas melhores e alçar voos maiores é preciso um envolvimento muito superior. O prazer não se produz sem a dor. Todo o país que hoje nos atrai pela sua organização viveu uma revolução. Somos ainda crianças mimadas e mal educadas, enquanto cidadãos. Vivemos a ilusão de que dias melhores virão, afinal, Deus é brasileiro. Ironia do destino, acho que só aqueles que partiram ou pensam em partir podem salvar este país. Como? É tema de outra conversa. Cabe a uma minoria (des)iludida tomar a decisão. “Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela”. Camus de novo para ajudar os que já experimentaram o amor por alguém, para além do amor próprio, e vão ficando por aqui, mesmo tendo condições de partir.

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