Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é filósofo e empresário. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde busca investigar a "mecânica do desejo nas relações de poder", e o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é um dos fundadores e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Idealizador do Scopi, software líder de mercado, que tem como objetivo ajudar as organizações a criarem a cultura do planejamento.

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Paixão: sentimento meio sem razão

Será possível conceituar a paixão? Na filosofia houveram tentativas, apesar de seu instrumento, a razão, não ser muito apropriado. Condillac definia a paixão como “um desejo que não permite ter outros, ou que, pelo menos, é o mais dominante”. A paixão é a inclinação que impede a razão de compará-la com as outras inclinações e assim de fazer uma escolha entre elas. Por isso, a paixão exclui o domínio de si mesmo e, de certa forma, escapa da razão. Kant, outro filósofo, ressalta o poder que a paixão tem de dominar toda a conduta humana e ressalta o perigo que a paixão representa para a escolha racional e aliberdade moral. Mas haverá vida sem paixão? É bom lembrar que nos grandes feitos da humanidade, raramente não se viu a paixão. Descartes define a paixão como “as percepções ou sensações ou excitações da alma… que são causadas, mantidas e amplificadas por alguns movimentos dos espíritos.” Os espíritos para Descartes são os “espíritos animais” centrais à noção de fisiologia de Descartes (não estamos falando de espiritismo). Descartes explica que os espíritos animais são produzidos pelo sangue e são responsáveis por estimular os movimentos do corpo.  Na época de Descartes não se tinha o conhecimento fisiológico que se tem hoje e explicações como esta eram aceitas. Descartes fazia uma distinção entre mente e corpo e a paixão era um movimento do corpo e não da mente. Hoje, mente e corpo formam uma unidade e as paixões são produtos desta união. As paixões, enquanto são sentidas, parecem ser inquestionáveis, mas podemos estar enganados de que as sentimos, enquanto as estamos sentindo. Só saberemos depois. Agora, deveremos então evitar as paixões? E teremos o poder de impedí-las ou limitá-las? O filósofo Rochefoulcauld diz que “se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas do que pela nossa força”, ou seja, é bem provável que não seja paixão.  Paradoxalmente, a paixão é tão inteligente que ela própria impede que nossa inteligência possa interferir na sua condução. Quem conduz é a paixão, com todos os riscos deste sentimento meio sem razão. Mas ela normalmente tem prazo de validade. É quando a razão é convidada a entrar e saberemos então se de fato foi paixão. Mesmo que a paixão não se transforme em amor, que seria o ideal, podemos pensar que aquele que viveu a paixão ganhou a experiência de viver o que a vida de mais intenso pode oferecer: uma paixão.  Como prova do grau de dificuldade em explicar a paixão, o filósofo Voltaire, usando uma metáfora, tenta conceituar o inconceituável: “As paixões são como as ventanias que incham as velas do navio. Algumas vezes o afundam, mas sem elas não se pode navegar.”

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