Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é filósofo e empresário. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde busca investigar a "mecânica do desejo nas relações de poder", e o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é um dos fundadores e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Idealizador do Scopi, software líder de mercado, que tem como objetivo ajudar as organizações a criarem a cultura do planejamento.

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O “pão e circo” no Dia do Trabalho

Na última terça-feira (primeiro de maio) foi o Dia Mundial do Trabalho. Dia que pelo mundo uns comemoraram e outros refletiram e protestaram. Em vários países latino-americanos, como Argentina, Paraguai e Colômbia, os trabalhadores tomaram as ruas para protestar contra o desemprego, política econômica e governo. Em Assunção, gritando palavras de ordem contra a política econômica do governo, centenas de operários e líderes sindicais paraguaios lembraram da data em um ato na frente do Panteão Nacional dos Heróis. O mesmo tom de protesto ecoou na Colômbia, com seus trabalhadores tomando as ruas das principais cidades do país contra o desemprego, além de denunciar as ligações de políticos do governo com paramilitares americanos. Na Argentina, a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) e organizações políticas e sociais opositoras lembraram o assassinato do professor Carlos Fuentealba, de 40 anos, morto por um policial durante a repressão a uma passeata há cerca de um mês. Sua  morte também foi evocada por professores que marcharam para o local onde ele foi atingido. Enquanto isso, na mesma data, no mesmo dia do trabalho, um país chamado Brasil trocou o protesto pela festa, provavelmente porque este país, diferentemente dos outros, não vive a crise do desemprego, nem a crise da corrupção institucionalizada. Shows gratuitos e sorteios de prêmios patrocinados pela CUT e pela Força Sindical prevaleceram sobre a discussão de temas importantes, como a falta de políticas de inclusão, de uma educação de qualidade, e a flexibilização trabalhista. A Força Sindical gastou cerca de R$ 3 milhões na festa em São Paulo, que teve sorteio de dez carros no valor de R$ 23 mil cada e cinco apartamentos de valor de R$ 50 mil. A programação teve ainda mais de 40 shows gratuitos, entre eles Zezé di Camargo e Luciano, Daniel, Exaltasamba, Fábio Jr., entre outros. Para não dizer que o sentido político foi totalmente desprezado, resolveram escolher o tema ecológico, intitulado: “Os Trabalhadores em Defesa do Planeta”, e distribuíram 20 mil mudas de plantas nativas. Nada contra a consciência ecológica, mas no Dia do Trabalho, não seria mais coerente fazer a tão necessária pressão aos políticos para assumirem de uma vez por todas o papel que lhes compete de criar condições para governar este país rumo a um verdadeiro desenvolvimento? Não seria pertinente discutir a reforma trabalhista, depende a tão prometida geração de emprego e renda? Sim porque sem reformas não há projeto de desenvolvimento que resista. Festejar o dia do trabalho no Brasil, mesmo que inconscientemente, é como validar a realidade em que vivemos. Nada contra a alegria, mas em tempos de desemprego e de desigualdade social, no Dia do Trabalho mais do que comemorar deveríamos no Brasil refletir e protestar, seguindo o exemplo da grande maioria dos país tanto do terceiro como do primeiro mundo. Sim porque nos países da Europa a ênfase foi reivindicar. Não parece que há uma clara intenção de desfazer a necessidade da mobilização em torno de questões que afetam mais de perto os trabalhadores e todo o setor produtivo do país? Ou seja, manter o país na ilusão de que apesar da carência e da violência, tem a festa que compensa. Observando mais esta edição do Dia do Trabalho, da forma como se repete todos os anos no Brasil, fica mais fácil de compreender porque somos o que somos e estamos onde estamos. Culpa de quem? Bem, se existe algum culpado (e neste caso existe e é preciso deixar bem claro) não é somente dos trabalhadores e de suas lideranças sindicais, mas também das entidades empresariais que se omitem e desta forma estão contribuindo para a acomodação, tal qual o “pão e circo” dos tempos de Roma.

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