Apresentação

Este blog é uma tentativa de traduzir o trabalho do pensamento em palavra escrita, com direito a falhas, equívocos e perdões.
Obrigado aos que tiveram o trabalho de dedicar sua atenção!

Perfil

Marcos Kayser é filósofo e empresário. Escreveu o livro O Paradoxo do Desejo, com prefácio de Márcia Tiburi, onde busca investigar a "mecânica do desejo nas relações de poder", e o livro Quando Tamanho não é documento, contando a história da gestão da TCA, empresa da qual é um dos fundadores e foi vencedora do Prêmio Nacional de Inovação. Idealizador do Scopi, software líder de mercado, que tem como objetivo ajudar as organizações a criarem a cultura do planejamento.

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HOMO HOMINI LUPUS EM HOBBES E FREUD

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

MESTRADO DE FILOSOFIA

FILOSOFIA  SOCIAL E POLÍTICA

HOMO HOMINI LUPUS EM HOBBES E FREUD

MARCOS KAYSER

São Leopoldo, junho de 2005.

HOMO HOMINI LUPUS EM HOBBES E FREUD

Introdução

Aproximar Hobbes e Freud pode causar certo estranhamento. Um por ser considerado filósofo, outro psicanalista, o primeiro voltado à política, o segundo à psiquê. Castoriadis começa a desfazer este suposto distanciamento e afirma que a psicanálise tem, no essencial, o mesmo objetivo que a política, ou seja, a autonomia do sujeito. Talvez por ser filósofo e psicanalista, Castoriadis não só compreendeu mais facilmente a aproximação destas duas áreas do conhecimento, como colocou uma pergunta comum a ambas: “como posso ser livre, se sou obrigado a viver numa sociedade em que a lei é determinada por outros?” E continua: “como posso ser livre se sou governado pelo meu inconsciente1?” Os que insistem na separação e no distanciamento dirão que a primeira pergunta é feita para o filósofo e a segunda para o psicanalista. Assim, a primeira pergunta quem estaria habilitado a responder seria a Filosofia, enquanto que a segunda seria a Psicanálise. Aqui, sob ambos olhares, vamos tentar abordar o pressuposto de uma tendência humana ao conflito, à destruição, à morte. “O inferno são os outros” como diria Sartre. “Homo homini lupus” (o homem é o lobo do homem), conforme Hobbes e Freud.

Da observância de diversas formas de manifestação da violência que marcaram a história da humanidade ao longo dos séculos e se prolongam nesse início de século XXI, supomos que, com outras vestes, em plena sociedade civilizada, continuemos sendo bárbaros. Desejo de mais e mais poder e constante ameaça da morte violenta, semelhante ao estado de natureza, teorizado por Hobbes e que se confirma nos escritos psicanalíticos, chamados sociais, de Freud, são marcas do nosso tempo. Hobbes e Freud, coincidem quanto ao pressuposto antropológico e/ou psicológico do “homo homini lupus”, como também na necessidade de um Estado forte como única via para a paz. Hobbes vê nesse Estado, instituído pelo pacto entre os homens, num ato da razão e da vontade, uma saída triunfante, pois é garantia de paz e prosperidade. Freud vê como uma saída necessária, mas nada tranqüila, visto que estará carregada de mal-estar, pois o indivíduo terá seu desejo de liberdade reprimido, na medida em que cede parte dela em troca de segurança.

Apresentaremos sinteticamente alguns sintomas, para falar numa linguagem não exclusivamente filosófica, dessa condição agressiva da natureza humana, a ponto de Hobbes e Freud usarem a metáfora “homo homini lupus” para expressar a luta primitiva entre Eros e Tanatos, que se estende na sociedade e nos faz refletir sobre as formas de superar e/ou suportar o paradoxo inquietante do desejo de paz diante da realidade da guerra.

Homo homini lupus em Hobbes

Uma espécie de psicologia da natureza humana é o ponto de partida de Hobbes. O homem é analisado numa condição primitiva da existência, ou melhor, em condições mínimas de sobrevivência. Este estado, a que Hobbes denomina de estado de natureza, é reflexo da condição primitiva, em que o desejo insaciável do homem, partilhado de uma liberdade total, ausência de obstáculos, e de uma igualdade generalizada, onde todos podem tudo, coloca o homem em estado de guerra, em constante ameaça da morte violenta. A lei natural apesar de existir não tem uma valoração prática, na medida em que não há um poder capaz de julgar nem aplicar as sanções conseqüentes de eventuais desobediências. No estado de natureza, todos são juízes e cada um obedece tão somente a si.

A indeterminação histórica do estado de natureza hobbesiano e a possibilidade de se constituir exclusivamente numa hipótese lógica, arquitetada para demonstrar os elementos constitutivos do homem, não desfaz a validade da teoria, visto que, em tal estado, as relações humanas competitivas possuem similaridades com as relações observadas nas sociedades contemporâneas, mais especificamente nas sociedades de mercado possessivo, conforme cita Macpherson. Podemos identificar nestas sociedades homens calculistas de seus próprios interesses, capazes de apoiarem um governo e pactuarem ao seu favor, desde que este soberano imponha regras que permitam a invasão sem a destruição mútua:

“Apenas na sociedade de mercado possessivo é que todos os indivíduos precisam se invadir mutuamente, e somente nelas podem fazê-lo dentro das regras da sociedade.” (Teoria do Individualismo Possessivo, II, p. 109)

Hobbes escreve em meio à guerra civil inglesa. Tanto vida pública como privada estão imersas no conflito configurando um paradoxo que se estende aos nossos dias: por que deflagrar uma guerra, por em risco a vida e destruir-se precocemente, se o maior desejo do homem é escapar do maior dos males: a morte? E a pergunta que segue: como alcançar a paz num palco de sucessivos conflitos? Uma das primeiras conclusões de Hobbes é que o estado de total liberdade e igualdade, no qual todos podem tudo, inclusive se invadirem mutuamente já que possuem as mesmas potencialidades, precisa ser ainda nesta vida superado.

Se a realidade factual de Hobbes por causa da guerra é turbulenta, o momento da história do pensamento humano também é. Processa-se a ruptura do medievo com a modernidade, no habitat de Hobbes, a passagem da Inglaterra medieval para a Inglaterra moderna. A fé cede seu papel de protagonista à razão. A felicidade, a grande meta dos homens, precisa começar a ser conquistada aqui na terra e não ficar aguardando o dia seguinte, numa suposta transcendência. Hobbes provoca uma inversão da perspectiva clássica da felicidade. Enquanto que, para os filósofos antigos, a idéia de felicidade estava atrelada a uma fruição tranqüila do bem supremo, um movimento evolutivo, vislumbrando um fim pretendido e exaltado, em que o desejo poderia repousar, para Hobbes a felicidade está caracterizada pela inquietude de um movimento sem fim determinado. A inexistência de um fim último implica na impossibilidade de projetar o contentamento do homem para o futuro, se assim fosse, cessaria a sucessão contínua do movimento o que significaria a cessação da própria felicidade. O êxtase para Hobbes é agora. Nossa ganância é por um bem presente. Só a conquista deste bem será garantia do próximo bem. Bem aqui tem a significação de poder. Estamos assim condenados à inquietação e ao descontentamento, na medida que a busca é infindável, não se esgota na conquista momentânea. A natureza da felicidade se deduz deste esforço repetitivo, chamado desejo, conatus:

“…a felicidade desta vida não consiste no repouso de um espírito satisfeito, pois não existe o finis ultimus (fim último) nem o summum bonum (bem supremo) de que se fala nos livros dos antigos filósofos morais. E ao homem é impossível viver quando seus desejos, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. A felicidade é um contínua progresso do desejo, de um objeto para outro, não sendo a obtenção do primeiro outra coisa senão o caminho para conseguir o segundo.” (Leviatã, XI, p.91)

Os objetos são bons porque eles são úteis e eles são desejados por essa razão. A busca de um novo bem é busca de algo útil à manutenção do movimento e na medida que se acumula uma quantidade de bens, incrementa-se uma quantidade correspondente de poder. O incremento do poder de um indivíduo implica o decréscimo de poder do outro.

Quanto mais bens um indivíduo obtém, menos o outro tem. Temos uma relação muito mais econômica do que fraterna. O ser humano não é naturalmente social, não é por natureza um animal político com tendência a uma comunhão. Sob esta idéia poderíamos pensar que o homem não é por natureza cristão. Uma eventual tristeza diante da desgraça do outro é motivada mais pelo medo do que um sentimento de amor pelo próximo:

“Assim, não buscamos a sociedade naturalmente e por si própria, mas sim para que possamos dela receber alguma honra ou lucro.” (De Cive, I, 30)

“Toda a sociedade é portanto, ou para o lucro, ou para a glória; isto é: não tanto por amor de nossos próximos quanto pelo amor de nós mesmos.” (De Cive, I, 31)

Numa condição em que se caracteriza o individualismo possessivo se faz-se necessário aumentar o poder e se precaver do inevitável, mas imprevisível, ataque do outro. É razoável antecipar-se ao ataque inimigo, e a melhor estratégia é agredir antes de ser agredido. A famosa frase usada no futebol, “o melhor ataque é  melhor defesa”, pode também ser colocada à serviço da política. E Hobbes previne:

“que, do contrário, se contentariam em manter-se tranqüilamente dentro de modestos limites, não aumentassem, por invasões, o seu poder, não conseguiriam subsistir por muito tempo limitando-se a uma atitude defensiva (Leviatã, XIII).

Para Hobbes, as três causas principais encontradas na natureza (ou psicologia) do homem que o levam a guerra são: a competição, a desconfiança e a glória. Todas vestidas de dois constituintes fundantes do homem e da sociedade: o desejo e o medo. A primeira motivada pelo lucro, a segunda pela segurança e a terceira pela reputação.  Todas são inclinações que no estado de natureza, sem um poder suficientemente forte capaz de julgar e impor a regra, transfiguram o homem em lobo de homem (homo homini lupus):

“Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria invenção.” (Leviatã, XIII, p109)

O homem hobbesiano não quer apenas vencer a batalha contra o inimigo e sobreviver, quer viver melhor, e, por isso, como homem da vontade e da razão, abre mão de parte de sua liberdade em troca de segurança e prosperidade. Institui o Estado absoluto, através do pacto. E por que absoluto? Porque o ímpeto do homem, que pode ser associado à pulsão de morte freudiana, só pode ser contido por um poder que concentre o poder de todos, absolutamente mais potente. Para conter, em certa medida, a insaciabilidade do desejo humano, só mesmo um poder capaz de intimidar o lobo por meio do medo da punição. O soberano estabelece um poder coercitivo terreno para assegurar o cumprimento das leis de natureza. A violação da lei por parte dos súditos acarretará em punição por quem detém todo o poder de punir: o soberano.  Além da punição terrena, tem a punição divina que consiste na morte eterna. O balizamento para determinar as transgressões é dado pelas leis civis, criadas para tornar escritas e públicas as leis naturais. Nas mãos do soberano está o monopólio do medo.

Mas como o homem não é só medo é também desejo, Hobbes, da necessidade de manter o homem com a esperança de desejos satisfeitos, completa sua mecânica de controle com o componente da recompensa terrena e divina. Na terra o soberano recompensa seus súditos com a garantia da segurança e oferecendo as condições necessárias para que cada súdito, sob sua própria diligência, conquiste riqueza e conforto. No céu a recompensa está na vida eterna.

Hobbes entende assim que numa sociedade controlada por um Estado absoluto, que se impõe pela ameaça do medo da punição e pela esperança da recompensa, o lobo transforma-se em cidadão. Todavia, a psicologia hobbesiana não deu muita atenção para os desejos reprimidos deste cidadão.

Homo homini lupus em Freud

Apesar das obras ditas sociais de Freud não merecerem o mesmo entusiasmo dedicado por seus analistas aos demais escritos, os mais atentos, ou melhor, os mais interessados perceberão o quanto para Freud era pertinente a extensão de suas teorias da psique do indivíduo para o contexto social. Na medida que o exterior, mais especificamente, o outro, intervém no indivíduo, como modelo e também como adversário, seria no mínimo imprudente ignorá-lo.

Coincidindo com Hobbes, como propósito da vida humana, Freud identifica a busca intensamente do prazer, evitando a dor, concluindo que a vida se define pelo princípio do prazer2. Princípio geral que domina o funcionamento do aparelho psíquico do indivíduo desde o início de sua vida. Todos desejam ser felizes:

“Voltar-nos-emos, portanto, para uma questão menos ambiciosa, a que se refere àquilo que os próprios homens, por seu comportamento, mostram ser o propósito e a intenção de suas vidas. O que pedem eles da vida e o que desejam nela realizar? A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer.” (Mal-Estar na Civilização, p.94).

É o princípio do prazer, inerente ao psiquismo humano, que decide sobre o propósito da vida do indivíduo e conta com a pulsão de vida (Eros) para chegar ao êxtase existencial. Todavia, Eros não está sózinha, concorre com Tanatos, pulsão de morte3, que segundo Freud, tende a forçar o indivíduo ao retorno de seu estado anorgânico (não-vivo, anterior de ser vivo). Mas como se não bastasse, a luta entre Eros e Tanatos, Eros possui uma dualidade objetiva que a coloca em situação de conflito intrínseco. Eros voltado para o prazer e Eros voltado para a união com os outros, em busca de novas combinações de vida.

Freud reconhece, entretanto, que esse objetivo geral da felicidade jamais será satisfatoriamente alcançado, uma vez que tanto o macrocosmo, ou seja, a civilização4, quanto o microcosmo do homem, ou seja, o corpo, representa muito mais sofrimento do que felicidade. Para Freud as principais fontes de infelicidade e sofrimento, são o nosso próprio corpo, as forças exteriores da natureza e as adversidades oriundas das relações que estabelecemos com o outro, sendo este último enfrentamento o mais penoso de todos:

“… os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lupus.” (Mal Estar na Civilização, p133)

A denúncia do homem lobo é grave. Trata-se de uma tendência agressiva, uma pulsão5 que atravessa o comportamento humano e se expressa nas mais variadas formas de relação entre os seres humanos. A agressividade não é determinada pela sociedade, já nos tempos primitivos, como no estado de natureza hobbesiano, esta pulsão reina no interior obscuro da individualidade. Ligada ao narcisismo e à onipotência, se estende ao exterior, à sociedade, pela negação do outro, que só existe como instrumento de satisfação do ego6 (eu). A sociedade impõe limites e o ser humano se vê obrigado a moderar suas expectativas, domesticando o princípio do prazer, reduzindo-o a um princípio de realidade7. Colocando em primeiro plano a árdua tarefa de evitar o sofrimento, a busca pela satisfação do princípio do prazer passa a ser secundária. O dilema está criado. Se ao homem não é permitido realizar plenamente o programa do princípio do prazer, o mesmo homem não deseja abandonar o esforço para conseguir aproximar-se da sua consecução, passando a ser um desafio essencialmente subjetivo que perpassa o indivíduo ao longo de sua existência.

Apesar dos regramentos e das limitações impostas ao homem em sociedade, impedindo a conquista da felicidade idealizada, a civilização é um mal necessário. Como Hobbes, Freud defende que a vida dos homens só é viável quando uma força com poderes maiores do que o poder individual se faz presente:

“A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder dessa comunidade é então estabelecido como ‘direito’, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como ‘força bruta’. A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização.” (Mal-Estar na Civilização, p.115)

Se, por um lado, as restrições viabilizam a vida em sociedade, trazem, por outro, sérias implicações à organização psíquica do ser humano. O homem se constitui como ser social, aprisionado a um dilema que parece insolúvel. No estado de natureza tinha uma liberdade ilimitada, sem nenhum valor, uma vez que um indivíduo livre podia colocar em risco a vida do outro sobre o qual avançava e também a sua própria vida, bastando esbarrar num indivíduo mais forte à sua frente, diante do qual decaía. No estado de sociedade o Estado como entidade reguladora, mantém uma certa ordem, às custas de restrições às liberdades individuais. Freud identifica que, por conta dessa liberdade perdida, o ser humano estará permanentemente em conflito com a própria civilização, reconhecendo que cada revolução, cada impacto que a humanidade experimenta, é uma tentativa de externar, e superar, esse conflito, essa inquietação. E, é assim que se dá evolução da civilização:

“O impulso de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral. Não parece que qualquer influência possa induzir o homem a transformar sua natureza na de uma térmita. Indubitavelmente, ele sempre defenderá sua reivindicação à liberdade individual contra a vontade do grupo.” (Mal-Estar na Civilização, p.116)

Assim como Hobbes, Freud sentencia: “O homem civilizado trocou a parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança”.

Conclusão

Na tentativa de proteger o homem do lobo, ou converter o lobo em cidadão, a proposta de Hobbes da criação de uma instância superior, no sentido de pura imanência do poder, que viabilizasse a paz, sem ignorar a insaciabilidade do homem desejante, falhou se observada na história do absolutismo. O Estado absoluto não foi capaz de pôr fim à guerra de homens contra homens. Hobbes soube identificar o desejo e o medo como elementos constitutivos do homem que o colocam em preeminência do conflito, mas ignorou a possibilidade do auto-domínio, preferindo apostar todas as “fichas” num poder externo como meio de superar o conflito. Hobbes não acreditou na possibilidade do suportamento, capacidade do corpo humano suportar o conflito, nem confiou na possibilidade de transformar o conflito degradante em conflito produtivo. Hobbes entendeu que a saída triunfante para o problema da guerra estava na criação do monstro disciplinador, o Leviatã. Não contou que o monstro tinha corpo humano, era homem sujeito à insaciabilidade do desejo e transgressões. Hobbes deixou o soberano (governo) a mercê do próprio desejo, sem limites, sujeito à insaciabilidade e ao auto-interesse de si mesmo. Seguindo os pressupostos de Hobbes, as formas de coerção e premiação, aplicadas a quem detém a soberania, não são suficientemente eficientes para policiar a polícia, ou seja, o soberano. Hobbes caiu na sua própria armadilha. Concebeu como necessária a existência de um poder absoluto para limitar o desejo insaciável dos homens mas não pensou na necessidade de limitar o soberano que também é homem. Provavelmente sua coerência racional obrigou-o a defender a premissa que diz: um absoluto para ser limitado não é mais absoluto, portanto, um absoluto não pode ter limites, não pode ser limitado por alguém. Só se, para Hobbes, o soberano não seja homem e, portanto, não seja lobo.

Freud, sem entrar no mérito da política de Estado, é como Hobbes, defensor da propensão humana à felicidade, todavia, é trágico. A civilização impõe restrições e proibições ao princípio de prazer (Eros) para conter a agressividade inata, mas, ao mesmo tempo, alimenta a tendência do ser humano de retornar ao estado inorgânico, à morte. Para Freud não há saída, estamos condenados ao triunfo da pulsão de morte. Ao final o lobo triunfará. Não há solução externa que iniba a tendência agressiva. Só nós resta uma alternativa, a que denomino, por minha conta e risco, de suportamento, que passa pelo conceito de auto-domínio, dar conta das perdas, dar conta da dor.

No funcionamento psíquico, quanto mais o supereu (superego) for suprido de referenciais éticos, mais severidade terá com as intenções instintivas do isso (id). Supereu vazio é condição de excelência para a pulsão de morte. “O lobo está livre para atacar”. Para que o indivíduo dê conta da impossibilidade da realização de boa parte de seus desejos, a civilização tem o papel de reforçar os padrões morais e éticos, sem os quais ela não se sustentaria.

Retomando Castoriadis, para quem “a plena democracia, e a aceitação do outro, não formam a tendência natural da humanidade” (Figuras do Pensável, p.268), a sociedade não é instituída apenas para conter a violência, mas principalmente para fazer o indivíduo sair de sua onipotência e de seu egocentrismo (mônada psiquíca), reconhecendo que fora de si há outros seres humanos. Respondendo as duas questões de Castoriadis, apresentadas na introdução deste trabalho, ele mesmo identifica no desenvolvimento de uma subjetividade reflexiva, em que o indivíduo estabelece um outro tipo de relação consigo mesmo e com o seu inconsciente, a condição de possibilidade para a conquista de uma autonomia.  E como a autonomia, segundo o próprio autor, não pode ser imposta nem ensinada, a psicanálise é o acesso à autonomia, a partir da descoberta de motivações e pulsões escondidas e recalcadas em mim, com a ajuda do outro.

Em suma, é preciso manter no homem acesas as chamas do desejo (Eros) sem que elas o consumam e se generalizem em guerra (Tanatos), e, para isso, é preciso limitar sem suprimir. Ao mesmo tempo as condições de possibilidade para a paz passam pelo auto-domínio que só pode ser conquistado através do desenvolvimento de uma ética da responsabilidade. Na onda do individualismo possessivo, seria dizer: o homem precisa se conscientizar que sua felicidade depende da felicidade do outro. Meu egoísmo precisa ser solidário com o egoísmo do outro.

Bibliografia

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ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos. Porto Alegre: Artmed, 1999.

1 O inconsciente tem um status de outro.

2 Atividade psíquica que tem por objetivo evitar o desprazer (aumento das tensões) e proporcionar o prazer (redução das tensões).

3 Força contrária à pulsão de vida que tende dissolve-la e remeter o indivíduo a seu estado inorgânico original

4 Freud no Mal Estar na Civilização, p. 109, cita: “a palavra civilização descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais e que sermos a dois intuitos: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos.”

5 Conforme Laplanche e Pontalis, pressão ou força energética que faz o organismo tender para um objetivo, cuja fonte está numa excitação corporal

6 Conforme David E. Zimerman, ainda persiste a clássica definição de que o ego (eu) é a principal instância psíquica, funcionando como mediadora, integradora e harmonizadora entre as pulsões do id (isso), as exigências e ameaças do superego (supereu) e as demandas da realidade exterior. Entende-se por id uma fonte de energia psíquica, um reservatório de pulsões quase todas inconscientes.

7 Aparece como uma modificação do princípio de prazer, sem suprimi-lo, que garante a obtenção das satisfações no real. A criança recém nascida ainda é incapaz de diferenciar o seu Eu do mundo externo. O seio da mãe é o primeiro objeto que mostra a existência de um fora.

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